Amigos do Rogers

10 de agosto de 2007

A Fuga


Meu nome é Ninguém. Minha mãe, meu pai, todos os meus companheiros me chamam de Ninguém
(Odisséia, HOMERO)

Só agora ele vê o outro ali, em sua frente, sorrindo, com as mãos paradas no ar, e compreende. Só agora. Sim, e o sorriso dele – do que está na sua frente – é um sorriso maroto, inocente, verdadeiro, espontâneo. Depois de um ano – agora – ele percebe. Sim, aquele posto em sua frente... Não é aquele de um ano atrás... Só agora.
Até parece que viveu durante este último ano anestesiado, sem realmente viver, sem pensar, sem compreender – deixou-se levar... E só agora percebe. Meu Deus! Tudo verdade! Deus! Não!
Emborca a cabeça para o lado direito, fecha os olhos lenta e profundamente – assim pode vê-lo melhor. Estranho. Vê-lo melhor? Com os olhos fechados? Senti-lo melhor... O ping! da gota d’água que cai na pia (na cozinha) deixa-o zen, ainda anestesiado, fugindo da realidade que, agora, depois de um ano, compreende. Aceita. Aceita? Não. Não a aceita.
Alguns lhe disseram que o tempo é o melhor remédio. Não absorveu nada do que lhe disseram no último ano. Apenas ouviu, não absorveu. Tempo? Que se dane o tempo. O melhor remédio é a fuga.
Abre os olhos e o vê ali, tão pequeno, tão bonito, tão... Os bracinhos suspendidos, um sorriso no rosto (como sempre). Olha-o e compreende – agora, tarde demais para sofrer? – que a realidade é esta, imposta, cruel.
O outro – o dos braços pequenos – parece querer saltar-lhe e dizer: “Papai, mand’a bola. Vai!”. “Não tem mais bola” – brincava o pai, escondendo-a atrás do corpo. – “A bola sumiu”. “Mentira. Tá’trás de você!”. Que menino esperto. Nunca se deixa ser enganado. E apenas cinco aninhos...
Agora, levanta o braço esquerdo, custando, que há muito ficou abaixado, suspenso no ar, e passa a mão no rosto do garoto. Passa os dedos indicador e médio sobre suas negras e bem delineadas sobrancelhas. Como é bonito! Onde está o relevo de suas sobrancelhas? A maciez de sua pele? Por que esse sorriso estático? Por que não abaixa os braços?
Nem agora percebe? Nem agora? Sem dúvida, a fuga é o melhor remédio.
Ontem brincou com um garoto no grande jardim de sua casa. O filho, o mesmo de um ano atrás, sem mudanças, com uma camiseta amarela, bermudinha branca, tênis All star, pedia-lhe a bola. Vai ser um grande jogador. Jogador ou médico. Adora remédio. E nem tem medo de machucado. Acha curioso. “Tá saindo sangue!” – gritara um dia. – “E muito”. O pai correra para o filho. Que ria, curioso, moleque. “Que doido!” Já tá aprendendo gírias, o garoto. O pai também sorrira. Pegara-o, dera-lhe um beijo no rosto e lavara o machucado.
Então, ontem brincava com o filho. Luís (o pai), a bola e o filho – o mesmo que ele vê agora, concretizado numa foto, posta num lindo porta-retratos, em cima da mesa. O homem, sentado numa cadeira, colocou a foto ali e, no momento, a olha, perdido. Apenas cinco aninhos...
__ Meu bem, vem dormir, já tá tarde! – ouve a esposa lhe gritar.
__ Tô vigiando o Fernandinho!
Ontem brincava com o menino e, de vez em quando, olhava a esposa, lá, na porta, sorrindo. “Meus dois amores...” – sussurrava.
Lançava a bola ao vão, sorria ao vão, dava tchaus ao vão, para lá, na direção da porta, sorrindo. Meus dois amores...
De repente – agora – levanta-se da cadeira e vai ao seu quarto.
__ Sim, já tô vindo dormir – fala, voltando à sala, sentando à mesa. Mas antes, pegou a bola, sempre a mesma bola.
__ Deve tá cansado de brincar, né? Desculpa, meu filho. Deve achar que papai é louco. Papai te ama.
O maroto continua na mesma posição, sorrindo, com os braços estendidos, assim como estava quando tiraram sua foto.
__ Já tô indo, porra!!! – grita, irritado. – Já tô indo! – continua, agora lhe caindo lágrimas dos olhos. – Já tô indo... Não percebe que quero brincar com meu filho?
Só agora, cabisbaixo, chorando, vendo a mesa molhada, percebe que a fuga foi o que deixou intacto, sem sofrimento, anestesiado. Fingiu-se, acreditou-se, muitos acharam-no...
__ Deus – chorando –, só agora percebo que tô louco! Só agora...
Por que roga a Deus, Luís? Não acredita em Deus como Ser justo. Agora, percebendo que a fuga, que no início realmente era proposital, tornou-se séria demais, lembra-se de Deus?
Volta ao quarto, onde esteve deitado durante muito tempo, sozinho, e o encontra completamente vazio de pessoas. Estantes, livros, guarda-roupa, cama, televisão, vídeo-cassete. Mas, e a minha esposa?
Estendido na cama, agora, lembra-se de exatamente um ano atrás. Sangue. Muito sangue. Fernandinho gostava de sangue – relembra. Suzanna odiava. Deitado, confuso, percebe – o esquecimento foi o melhor dos presentes que já recebeu. Porém, agora, o esquecimento tornou-se – misturou-se à realidade.
__ Faz um café pra mim, meu amor, faz... – olhou para o lado esquerdo da cama e murmurou.
Nada havia.
__ Não!!! – e o grito ecoa, desesperado.
Só agora compreendia que estava louco. E era o pior que podia ter lhe acontecido: a percepção da loucura.
__ E agora, meu Deus, o que faço? Será que vou sofrer tudo aquilo que eu deveria ter sofrido durante este tempo? Será que vou lembrar todos os dias da mesma cena? Eles, meus dois amores aqui, na sala desta casa, estendidos... E por policiais, sem motivo... Será?
Agora que parece distinguir a realidade da ilusão, agora que a memória desperta e o fere, agora que pela primeira vez pronuncia o nome de Deus pedindo ajuda, agora que o esquecimento (a fuga) se foi, resta-lhe, unicamente, a fé. A fé aliada à esperança. A esperança ao consolo. A fuga pela fé (A fuga pela fuga?). A fé.