Amigos do Rogers

28 de janeiro de 2009

EsPaÇo AmiGo

“”””” Explicação necessária

Espaço amigo? Sim, o nome já diz tudo – é um espaço destinado a amigos escritores. Todo dia 01 de cada mês, a escritora Giselle Sato contribuirá com um texto sobre mulheres, sexo, sexualidade etc. No dia 15 de cada mês é a vez de Bruna Mitrano publicar seus contos poéticos com histórias do dia-a-dia. Que o leitor encontre além de estilos diferentes do meu, textos agradáveis e de qualidade. Creio que vai encontrar. Abaixo um novo texto da seção. Confira. “””””

Ela
(Bruna Mitrano)

Ela sempre está lá, todos os dias (até quando eu não estou, ela está lá, eu sei). No mesmo lugar e horário. Coincidência ou não, isso está mexendo demais comigo.Sou um homem metódico, admito. Sempre fui desse jeito, sempre preferi aquele vagão por ser aquele o meu vagão. Será que ela sofre do mesmo mal? Tanto faz, agora é tarde, já construí a minha verdade e nenhuma outra fará qualquer sentido.

Não quero parecer louco, não sou, se eu fosse louco contaria isso aos meus amigos insensíveis e riria com eles da minha cara de panaca, eles, os meus amigos insensíveis. Sei falar de futebol e de peitos, já basta para não ser louco e tê-los por perto, eles, meus amigos, insensíveis ou não. Mas você não é meu amigo e é por isso que estou lhe contando essa história, estória até certo ponto.

Tudo começou sem começar, no meio, como se nunca tivesse sido de outro modo. Desde não-lembro-quando, há anos, ela está lá todos os dias, naquele mesmo vagão, por volta de 6:20 da manhã. E eu também, claro, de que outra forma poderia saber? Insisto: sou totalmente são. Além disso, não tenho o dom de manipular os fatos. Se manipulo sentimentos, os meus e os de quem quer que seja, é apenas um detalhe (um detalhe que machuca, mas ainda assim um detalhe) que não vem ao caso.Outro dia paramos cara a cara.

Trem lotado, as pessoas que não conseguem sentar geralmente ficam grudadas nos canos de ferro atentas ao momento em que o primeiro indivíduo irá levantar, uma competição mal disfarçada. Eu não, me conformo com minha falta de sorte e escoro as costas na porta. Tem o inconveniente de o tempo todo a porta abrir e eu ter que desviar do povo (manada de búfalos) que entra (ninguém sai esse horário), mas só quem encara o trem de 6:27 sabe o quão valioso é um bocado de vento no rosto.

Naquele dia não estava tão cheio que eu não pudesse vê-la encostada na porta quase em frente a “minha”. Havia cinco outras portas, quatro, desconsiderando a que eu ocupava (sim, sobrava um extenso pedaço de porta ao meu lado, mas ela não se atreveria, não sou o único a ter medo), apesar disso, ela parou bem ali, na que, por acaso, estava na minha frente. Assim como havia outros cinco vagões. E todos os dias ela estava no que eu elegi, por mim ou por ela, como meu.

Desço na última estação, vou para o trabalho. Ela também, já sei onde trabalha. O mais impressionante naquela manhã, no entanto, não foi o desfecho. Ainda faltavam quatro estações para chegar à última (nosso destino), quando lugares nos bancos começaram a vagar. O primeiro estava bem próximo a ela. E ela? Continuou lá, em pé, inteira para mim, considerando meu ângulo de visão. Será que fez de propósito? Seria tudo de propósito? Até o vestido?

Era a primeira vez, em anos, que a via de vestido. O que fazia sentido, pois há meses não usava a aliança que outrora mantinha no anelar direito. Ela estava leve, como aquele vestido branco de verão em pleno outono. Eu quis não olhar quando ela entrou, não pude. Olhei descaradamente e segundos depois me arrependi. Mas não teria sido essa sua intenção ao escolher aquele vestido?: atrair olhares, atrair o meu olhar. Evidente que pensei nisso, como não pensaria?

Ela não sentou. Nem eu. Ficamos assim, até a penúltima estação, quando enfim sentei, após o senhor que estava bem ao meu lado levantar, não sem antes me interrogar em silêncio com aqueles olhos lacrimejantes de velho. Me rendi. Me rendo.

Sei que preciso encontrar uma maneira de falar com ela. Quem dera fosse a timidez o único empecilho. Bem mais ameaçadora é a possibilidade de tudo ser fantasia minha. Preciso descobrir se ela me vê antes de tentar qualquer aproximação, embora saiba que, para descobrir, seria necessário me aproximar. Sempre procuro um pretexto. Não encontro, sou pouco criativo. Ou encontro e considero pouco criativo. Porque, se acontecer, deve acontecer perfeito como é a perfeição das coisas que parecem reais: com uma pitada de imperfeição — comédia romântica.

Tanto cuidado tem motivo: ela é diferente. Sim, todos somos, mas não me refiro a esse aspecto. Há algo em comum entre as mulheres que conheci. Ela não, não se assemelha a nenhuma outra; nem a minha mãe, minha irmã, minhas ex-namoradas, nem mesmo a Amélie Poulan. Eu sei disso e ainda nem sei como se chama. Mas nome nada mais é do que uma etiqueta que alguém coloca na gente antes mesmo de ver nosso rosto. Pensando bem, talvez a conheça melhor do que muitos; do que seu ex-noivo, por exemplo. Posso reconhecer cada nuance de seu olhar matinal — isso não parece suficiente? Claro que sei mais, claro que não direi tudo, claro que sempre haverá algo sob as palavras.

Talvez você nunca entenda a importância que ela adquiriu na minha vida. Ninguém pode ter idéia do tamanho do medo que tenho de perdê-la. Tudo bem, você e o resto do mundo são pouco relevantes nessa situação. O que realmente me interessa é que já estamos no domingo, daqui a algumas horas irei revê-la. Mesmo não sendo a primeira vez, prometo, para mim, óbvio: amanhã não permitirei passar despercebida qualquer possibilidade.


>>> Bruna Mitrano publica seus textos no blog De lírio lilás