Amigos do Rogers

14 de março de 2009

Sobre 'A lei e o Crime', nova série da Record


Nunca fui um assíduo telespectador. Gasto pouco do meu tempo em assistir televisão. Da Globo, por exemplo, exceto alguns programas de humor (Casseta e Planeta não está incluído), a transmissão de esporte em geral e algumas minisséries, pouquíssima coisa me atrai. Na Tv fechada é possível encontrar – com paciência e tempo – algumas coisas boas, no entanto. Particularmente me atenho aos programas relacionados a filmes, música, esporte e à minha cidade natal, Uberlândia.

Num desses meus momentos em frente à televisão (normalmente quando estou cansado de ficar em frente ao computador ou cansado de leituras), me deparei com o trailer de “A lei e o crime”. Confesso que aguçou minha curiosidade. Esperei dias, e esperei ansiosamente. Enfim a série estreou.

Uma grata surpresa quando assisti, do começo ao fim, ao primeiro episódio da série. Embora trate de temas atualmente recorrentes, usados sobretudo pelo cinema e pela literatura, a série se diferenciou de quase tudo que é feito, hoje, na televisão brasileira. Houve, em 2007, uma tentativa a meu ver patética por parte da teledramaturgia da Globo (Duas Caras, com sua Favela da Portelinha inverossímil ao extremo) de dissertar sobre a pobreza, favelas e afins. No afã de não repetir os lugares-comuns do telejornalismo (favela = bandidagem = traficante = troca de tiros com a polícia), Duas caras fez o oposto – criou uma favela romantizada ao extremo, onde não havia nem era permitido nenhum tipo de crime.


A princípio, nada de mais em romantizações. Mas, quando qualquer obra se propõe a ser realista, ela deve ser verossímil em sua proposta. Uma obra – seja telenovela, livro, filme – que não convence é uma obra ruim. Duas Caras desde o início se propôs a ser realista e, mais especificamente, a dissertar (de forma ficcional) sobre segmentos da realidade brasileira, dentro os quais as classes sócio-econômica D/E. Pobreza de forma alguma é sinônimo de traficantes, drogas, bandidagem, tiros, assassinatos etc., mas também não falar sobre tudo isso é ir de encontro à realidade do país. E, com certeza e por mais que não pareça, é reforçar a alienação em que vive a população brasileira.

Morei quase a minha vida toda próximo a bairros pobres/favelas e sei muito bem dos crimes que ali são cometidos. Houve épocas em que quase todo dia ouvia falar de alguém assassinado. Alguns amigos/colegas com quem joguei bola na infância estão presos ou foram assassinados, alguns por policiais. Essa é a realidade, mas não a única verdade quando os assuntos são pobreza, favela, morro, bandido/traficante etc. Ora, essa é a realidade mais instigante e, portanto, a mais usada pelos meios de comunicação e pelas artes ao discorrer sobre esses temas. O trunfo advém da forma como tudo isso é usado. Aí, a meu ver, está o trunfo da série A lei e o crime.

Não houve, pelo menos nos capítulos a que assisti, a repetição exagerada de clichês quando se aborda essa temática. Ou, se há (houve) a abundância de clichês, são clichês que condizem com a realidade, e não aqueles que condizem com a idéia que criamos – nós, os telespectadores passivos e pouco curiosos – ao assistirmos diariamente televisão. Existem diferentes tipos de preconceitos – os que são preconceitos porque assim o vêm sendo repetidos pelas instituições (mídia, Estado e demais interessados) e os preconceitos que de fato se baseiam na realidade crua e nua. Esses últimos têm razão de existir.

“Às vezes o bem aparece disfarçado de mal e o mal disfarçado de bem – foi o que aprendi quando pela primeira vez fui obrigada a matar um ser humano” – fala de uma das protagonistas da série, Catarina, a delegada/narradora que teoricamente está do lado do Bem. Uma coisa que me chamou a atenção nessa série foi justamente esse não delineamento simplista e irritante de bonzinhos e mauzinhos. A todo o momento o telespectador se engana com os personagens – há “bons” que parecem “maus”; “maus” que se fingem de “bons”; defensores da lei corruptos e assassinos; bandidos preocupados com a honra; “bons” que, num momento, são obrigados a agir “malvadamente”; bandidos que são obrigados a descer do alto do seu pedestal de maldades quando são confrontados com algo maior e mais poderoso.

Para mentes simplistas – infelizmente a maioria da população brasileira –, as que acham que a sensação de insegurança é tão-somente causada por bandidos/vagabundos (termos recorrentemente usados pelos policiais e pela população mais reacionária ao se referir a bandidos pobres), vale a pena assistir à série. Pois ela mostra que bandido é aquele que comete atos criminosos, ora praticados por policiais, delegados, empresários, políticos, pobres e ricos. Ou por você mesmo. Estigmatizar os pobres e “favelados” como bandidos é uma estratégia usada recorrentemente por uma elite (ou por pessoas em geral) corrupta mas que nunca se conscientizou dos seus atos e sempre quis fugir de suas responsabilidades no que concernem ao atraso e à corrupção desse país. Desmistificar esse discurso é necessário e urgente. A série A lei e o crime contribui, creio eu, para que isso aconteça.
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>>> Para mais informações sobre o assunto, sugiro a leitura de Elite da Tropa (Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel) e esperar a publicação do conto de minha autoria A espera.
>>> Para assistir aos episódios de A lei e o crime, clique aqui no Youtube