Amigos do Rogers

31 de março de 2010

'A seita do caos', de J. P. Balbino, e a importância da literatura de entretenimento

Por Rogers Silva

Ação. Pura ação. Ação de perder o fôlego. Ágil como um filme de ação dos bons. Soma-se à ação a ficção científica. Soma-se à ação e aos traços de fc o suspense policial. São esses os gêneros de A seita do caos. E são justamente essas as qualidades do romance de estréia de J. P. Balbino. Despretensioso e bom. Simples e bom. Ele não se propôs a ser uma obra-prima (e não é), mas sim um bom entretenimento. Ponto pro autor, porque conseguiu.

Primeiramente quero começar a falar das minhas ex-antipatias pelos gêneros supracitados. As minhas antipatias por esses gêneros, mais especialmente por ação e fc, surgiram na verdade a partir do cinema, e não da literatura. Pouquíssimos filmes de ficção científica e de ação me agradavam. Os de ação sempre me passaram a impressão de entretenimento barato, feito por um diretor medíocre e pra um público preguiçoso. Aos de fc faltava algo, que falasse da condição humana (ou que a abordasse explicitamente), com a qual nos familiarizamos ao lermos um livro ou assistirmos a um filme.

Devo ressaltar que essas antipatias não têm nada a ver com preconceitos acadêmicos e/ou intelectuais. Muito antes de ingressar num curso superior ou ter o hábito de leitura eu já não gostava de filmes desses e de outros gêneros. São antipatias conseqüência de não-sei-lá-o-quê, que faz a gente gostar disso e não daquilo, ou de gostar mais disso do que daquilo. Incitavam minha curiosidade filmes brasileiros, dramas, filmes históricos, algumas comédias (sobretudo nacionais), alguns suspenses, pouquíssimos infantis. Mas ação e fc, não – raramente surgia a vontade de assistir a filmes cujos motes eram explosões de carro e tiros (no caso de ação) ou filmes de robôs, passados num futuro próximo ou distante. Sim, pra mim esses gêneros se resumiam a isso mesmo, sem colocar nem pôr.

No entanto o tempo passou, muita coisa aconteceu. Inclusive cheguei a publicar em duas antologias de literatura fantástica, cujo gênero principal era a ficção científica: Portal Solaris e Portal Neuromancer (ambas organizadas por Nelson de Oliveira). Nesse meio tempo li muitas obras policiais, das quais (das boas) passei a gostar muito. Autores como Flávio Moreira da Costa e Rubem Fonseca, com algumas de suas obras taxadas como policiais, são importantes não só para o gênero, mas também para a literatura brasileira. Assim, hoje, por várias e várias razões, sei do valor da literatura de ação, suspense e ficção científica para a formação de leitores. É aí onde quero chegar.

A seita do caos, do iniciante em livros (não levando em consideração suas participações em antologias) J. P. Balbino, é bom não porque levanta questões de ordem filosófica, política, afetiva, universal. Mas porque entretém. É um bom romance não porque (ab)usa de uma linguagem refinada, experimental, original. Mas porque sua linguagem é simples, direta e competente em sua proposta, estilo e gênero. A seita do caos é um bom romance não porque é pretensioso, complexo e rico, mas, ao contrário, porque é despretensioso, simples e limitado em seu projeto: de ser uma história de entretenimento.

Antes da sinopse do livro, comecemos pelo começo. A capa, a meu ver, poderia ser melhor: um olhar, entre uma máscara médica, ocupando a metade do espaço, e a visão de uma cidade, ocupando a outra metade, não dizem muito. No miolo, há pequenas falhas de impressão; nada comprometedor. Alguns probleminhas de gramática que, a meu ver, não deveriam ter passado, visto que há um revisor responsável por isso. Por outro lado, o tamanho da fonte, o espaçamento entre linhas e o espaço das margens (superior, inferior, esquerda, direita) são aprazíveis à leitura. A esses pontos positivos, somam-se um livro com orelhas e um marca-texto, tão esquecidos por tantos autores iniciantes. No geral, ponto pra editora, pro diagramador e pro autor.

Agora uma breve sinopse... Um ano após Klaus Lennertz (o protagonista) descobrir a cura para o Ius, um vírus que causou temor na humanidade e que foi responsável por algumas dissidências diplomáticas entre os países, quando tudo parecia estar resolvido, ele recebe em seu celular uma mensagem estranha e misteriosa dum indivíduo chamado Leonardo Cass: um recado sobre o pai de Klaus, que acabara de morrer, e sobre a possível volta do vírus mortal. A partir daí o leitor se depara com a procura por esse tal Leonardo e, em conseqüência, com uma série de perseguições contra o protagonista e seu grupo (sua namorada, seu irmão bandido e um amigo hacker do seu irmão).

Perseguições, muita ação, troca de tiros, explosão de carros, suspense, uma teoria absurda sem ser de todo inverossímil, espaços futuristas, traições, reviravoltas, heróis e vilões – eis o que o leitor encontra em sua leitura d’A seita do caos, de Balbino. Não pense o crítico literário mais ácido que é fácil fundir tudo isso num romance, descrever cenas de ação/troca de tiros/explosão de carros, entreter e, ainda por cima, convencer, ao ponto de incitar o leitor a continuar lendo, a fim de descobrir o que virá em seguida. Mas em seu primeiro romance J. P. Balbino consegue.

O romance é dividido em capítulos e, no interior desses capítulos, em quadros. A divisão em quadros, esses separados por espaços, ao mesmo tempo contribui e confunde. Contribui, juntamente com sua linguagem direta e fácil, para a agilidade do enredo, o que vai ao encontro da sua proposta inicial, de ser um romance de entretenimento. No entanto, confunde porque são apresentados ao leitor, a todo momento, situações, ambientes e personagens novos. Muitos desses personagens, ora porque têm o nome iniciado com a mesma letra ora porque não são bem descritos física e psicologicamente, confundem o leitor. Além do mais, alguns deles não têm sua função bem definida e, por isso, são dispensáveis ao enredo.

Enredo – é exatamente ele o protagonista do romance de Balbino. É exatamente por causa dele que o leitor segue em sua leitura, porque é ele responsável por prender a atenção do leitor e entretê-lo. A seita do caos é literatura de entretenimento. E a literatura de entretenimento é talvez a maior responsável por fisgar os (novos) leitores. Dê a um adolescente A seita do caos e Os lusíadas, de Camões, e ao final da sua leitura lhe pergunte de qual mais gostou. A resposta é óbvia.

Há leitores e leitores, há obras e obras. Há obras para leitores iniciados. Há obras para os leitores médios. Há momentos em que os leitores iniciados querem obras de leitura fácil e rápida. Chega um momento em que esses leitores médios necessitam de obras mais exigentes. Todas essas nuances e processos devem ser levados em conta pelos professores, críticos literários e demais especialistas. Mas infelizmente não é isso o que acontece. O que acontece, na verdade, é o oposto. Entre inúmeros equívocos, o mais comum é exigir de um adolescente de 14 anos a leitura de obras como a já citada epopéia de Camões e as do Pe. Antônio Vieira, por exemplo.

A seita do caos, de J. P. Balbino, está em circulação. Que os leitores possam conhecê-lo. Com certeza encontrarão entretenimento dos bons.
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Resenha publicada originalmente n'O BULE
Publicada também na revista O BULE, número zero