Amigos do Rogers

5 de abril de 2010

'Avatar' e a verossimilhança

Por Rogers Silva

No filme Avatar, escrito e dirigido por James Cameron, os seres humanos são os vilões. Nada mais verossímil. Como assim? Vilões, os seres humanos? Verossímil? Que troço é esse, verossimilhança?

Verossímil é aquele filme, ou livro, que de alguma forma se assemelha à verdade/realidade. Verossímil é, então, sinônimo de realista? Nada mais falso. Uma obra ficcional, embora louca ao extremo (fantástica, futurista, estranha), pode parecer verdadeira, porque possui a capacidade de convencer – isso é verossimilhança. Por outro lado, uma autobiografia ou biografia pode ser inverossímil (leia a biografia do Roberto Marinho escrita pelo Pedro Bial e tire suas próprias conclusões).

Na literatura, verossimilhança é a coerência interna da obra, a relação entre a forma e o conteúdo e a maneira que um contribui, ou não, com o outro. As incoerências internas destroem a verossimilhança de um texto literário (vide O código da Vinci, de Dan Brown). Exageros + explosões + fugas + mistério forçado + polêmicas ultrapassadas + teorias absurdas podem entreter, mas nem sempre convencem. Numa obra literária verossímil, o leitor parece estar vivendo a história, ora como personagem, tamanha é a capacidade da obra, e do autor, de convencê-lo. Numa obra inverossímil, o leitor a lê com certa desconfiança, como um mero espectador distante.

Uai, mas Avatar é verossímil? Claro! Embora maniqueísta – como 90% dos filmes vindos de Hollywood/Los Angeles/Califórnia/EUA –, uma vez que exagera os traços dos heróis e dos vilões, Avatar é, sim, verossímil, porque é uma alegoria da vida atual e do sistema que a cerceia – o capitalismo. Capitalismo selvagem? ‘Selvagem’ é um termo que não cabe aqui, porque se trata de um filme em que os selvagens (os habitantes das selvas, os bárbaros, os primitivos, os nativos, enfim, os habitantes de um planeta chamado Pandora) são os heróis, que preservam e cuidam da natureza porque dela precisam para sobreviver, diferentemente dos seres humanos (vilões), que destroem a natureza porque precisam dela para enriquecer. Capitalismo destruidor.
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Qualquer discurso que afirme que o ser humano destrói o que destrói – direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente – para se preservar é balela ou explicitamente ideológico. O ser humano criou um sistema ultra-multi-mega complexo para fins tão simples – sobreviver e ser feliz. Mesmo assim, não consegue nem um nem outro em sua plenitude. Os que conseguem, principalmente sobre-viver bem, normalmente são os mais “preparados” – os que comungam com esse mesmo sistema e dele aproveitam; os que sempre possuíram ou possuem melhor condições, ou mais ricos; os que jogam o jogo; os que possuem poder e armas.

No filme Avatar, os homens – cegos ou ambiciosos ou paus-mandados –, com suas máquinas moderníssimas como grandes muletas e escudos, com suas convicções perigosas, com sua ciência, com sua capacidade de fogo e destruição, com sua capacidade de se adaptar às formas humanóides dos Na’vi a fim de concretizar seus planos, com suas orelhas, partem para a guerra. Inicia-se, então, um conflito de proporções épicas em Pandora visando os recursos do planeta e a própria sobrevivência, sobretudo a dos nativos, que ali estavam e apenas queriam ali continuar.
Aí, no entanto, surge um ponto de inverossimilhança no filme Avatar – o final. Não direi o motivo porque teria que contar o final do filme. Os que não assistiram e ainda pretendem assistir me matariam. Assistam e me respondam – na vida real, ESTA, aconteceria daquela forma? No mundo concreto, ESTE, os vencedores seriam e são (metaforicamente) aqueles? Seriam? São?

Avatar é um amontoado de clichês, e ora moralista, mas é bom, porque além de técnica e visualmente perfeito, nos faz sentir raiva do ser humano por causa da sua crueldade-fruto-da-sua-ambição (clichê dos clichês, porque a verdade das verdades). Olhe à sua volta, ligue a televisão. Olhe-se no espelho. Mentira?
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Resenha publicada originalmente n'O BULE