Amigos do Rogers

29 de abril de 2011

Manicômio (episódio final)

Por Rogers Silva


Assista ao 4º episódio de Manicômio AQUI.


UNIVERSIDADE (Na evolução do luau)---- Rafael, enfim no local onde fora marcado o mini-evento, ouviu os outros, que já estavam cantando:

“Enquanto você se esforça pra ser...
um sujeito normal...
e fazer tudo igual...
Eu, do meu lado, aprendendo a ser louco...
Um maluco total, na loucura real...”
.
---- Alguns o cumprimentaram (“E aí, grande”; “Oi, Rafael”; “E aí, maluco”; “E aí, doido”), outros não interromperam a música para cumprimentá-lo.
---- __ Tudo só está começando. Tenho a noite pela frente – pensou o rapaz, negro, de uma pele mais clara que escura. – Bonne nuit! – e, ao exclamar, sentiu o distintivo cheiro da erva.

(Luís em sua casa)---- Chegando em casa, Luís foi ao quarto de sua filha Camila, viu se ela estava dormindo (Estava.), deu-lhe um beijo no rosto e foi dormir.

RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA SILVEIRA---- Todos dormindo gostosamente. Deliciosamente.

CASA DE BIGODE---- Ao chegar em casa, Bigode foi direto ao seu quarto, sempre mancando e, em conseqüência, lento. Já deitado, pensou e sussurrou: Mi-mi-minha mãe já deve tá-tá dormindo.

GRIFO DO NARRADOR---- João Marcos, após sair de sua casa, ia direto ao Viaduto Elias Simão, que ficava próximo. Ia a pé. Apesar de passar por um local perigoso, o rapaz não estava com medo. A confusão dos seus pensamentos, desordenados, contribuía para que ele fugisse da realidade amedrontadora do local por onde passava. Os pensamentos se embaralhavam: estúpido... Camila... Brother... Por quê?... explodir... Meu Deus. ...as grades e sonho... perfeição... voar...
---- Chegando em cima do viaduto, se preparou para fazer aquilo que já determinara. Preparar-se para quê? Não é preciso preparação. É só pular...
---- Enquanto a rodovia embaixo estava movimentada, em cima, na avenida onde ele se encontrava, em raros momentos passava um automóvel.
---- __ Melhor é não pensar. É só pular...
---- Pulou.
---- E foi caiiiindo,
----------------- caiiiindo,
----------------------- caiiiindo,
------------------------------ caiiiindo,
----------------------------------- TUMMMMMM!!! – um assombroso som seco.
---- Caiu em cima dum caminhão que ia para a cidade de Prata. PRATA VALE OURO – dizia um adesivo, colado no vidro dianteiro do caminhão.
---- Morreu? Que pergunta mais estúpida. Resposta: não. Ha-ha-ha-ha... (O narrador se diverte um pouquinho). Mas que diferença isso faz? Hein, que diferença faz?

---- Olhem só! Olhem! Duas pessoas morrendo ao mesmo tempo! Isso não é demais? Duas pessoas (ou personagens de um Ser Maior?) morrendo no exato minuto! Isso não é demais? Enquanto João Marcos, o estúpido, caía, lá no bairro Morumbi, Manel, o do contra, levava um tiro. O sangue escorria pelo seu peito escuro e sujava a camisa: PRETO SEM PRECONCEITO. Manel não agüentava de dor. Um acontecimento como esse tem que ser relatado de modo vagarooooso, morooooso, demoraaaado. Não acha? Hein? Um preto, isso mesmo, um preto morrendo não é um acontecimento extraordinário, incomum?
---- __ Passa a grana, cara! – gritara um rapaz de aproximadamente 22 anos.
---- __ Ih, jovem, eu sou daqui mesmo. Eu moro no bairro.
---- __ Eu num te perguntei se você mora no bairro. Passa a grana!
---- __ Eu não tenho não, jovem.
---- __ Que num tem o caramba. Passa a grana! – começava a ficar nervoso.
---- __ Eu não tenho mesmo não. Não tenho um centavo.
---- __ Então isso é procê aprendê a tê dinheiro quando alguém for te roubá – e o tiro certeiro no coração. O rapaz correra.
----Manel colocava a mão no coração e não sabia se ria ou chorava. Isso mesmo. Não sabia se rhi hi ria ou se chorai ai aiva. Deus, eu tô morreno – pensava, deitado no chão, o sangue escorrendo. E a luz impertinente, mal iluminando a rua, alcançava seu rosto. O boné jogado a uma curta distância de seu braço direito. Ainda conseguiu pegá-lo, ler o anúncio de cerveja, e jogá-lo, com as poucas forças que restavam, longe. Loooonge (O boné, grafado com um nome duma cerveja na frente, ia pelo ar sem graça da noite. Voava. Parecia ter asas. Um boné com asas? Talvez fosse o nome da famosa cerveja que lhe desse força. Foi voando pela cidade. Passou pelos bairros Alvorada, Dom Almir, Custódio e outros. A lua (ó lua) cumprimentou-o: quis saber como caminhavam as coisas aqui embaixo. Mais ou menos – respondeu o boné. As estrelas permaneceram mudas. Só olhavam para ele com seu brilho característico, cuja visibilidade era mais forte ainda perto do céu. Mas o boné já estava próximo ao céu? Talvez fosse a notoriedade da cerveja impregnada na sua face que lhe desse força. Quase chegou perto do caminhão em cima do qual João Marcos estava – tudo isso já é invenção, alucinação, devaneio do narrador (um velho de 69 anos desiludido da vida, com um coração áspero áspero áspero), pois eles estavam a mais de dez quilômetros longe um do outro. Que se desculpe um velho por se servir da fantasia). Looooonge...
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* Fim da minissérie Manicômio.
** Do livro homônimo Manicômio, ainda inédito.
*** Publicada anteriormente no site O BULE.