Amigos do Rogers

9 de setembro de 2011

Letícia

(Ilustração de Gabriela Pas)


Por Rogers Silva


Letícia,

Eu me apaixonei por você por tudo que você era, exatamente daquele jeito, sem tirar nem pôr: uma adolescente (criança?) de 14 anos pervertida, lésbica, bissexual, heterossexual, ultra-sexual, safada ao extremo, que achava o sexo a coisa mais louca do mundo, e por isso abusava, dava, chupava tudo e todos, mas com aquele jeitinho sempre tímido, até inseguro às vezes. Eu me apaixonei por você porque vi em você uma ingenuidade safada, que brincava de fazer sexo com as amiguinhas adolescentes, todas elas pervertidas como você, só para celebrar a vida, mas do seu jeito, do jeito que a sociedade não permitiria você celebrar. Do jeito que era de direito aos adultos celebrarem, embora a grande maioria nunca o fizesse, nunca o faria. Mas você celebrava. Com gozos. Com orgasmos. Com gemidos saídos da boca de uma adolescente: você. Mesmo quando dizia que estava com algum rapaz, eu me apaixonava ainda mais por você, porque o importante para você era o prazer, o prazer carnal, o prazer sexual, o prazer espiritual que o sexo te proporcionava. Pouquíssimo ou nenhum envolvimento havia. Sempre com aquele jeitinho sapeca, sorriso maroto, você só queria saber falar de sexo. E transar. Transar transar transar. Transava com todas as suas amiguinhas da escola. Até enjoar. Depois começou a transar com todos os meninos. Até enjoar (e enjoou rápido, porque eles eram uns toscos na cama, como você mesma dizia). Experimentou os mais velhos, da casa dos vinte, e deu deu deu. Esses adoravam te comer. Você não imagina o quanto. Deu pra Deus e o mundo. E deu tudo. Deu a bocetinha rosada. Deu o cuzinho rosado, lisinho. Frescura não havia em seu dicionário. Se o carinha pedisse, você até comia ele com seu strap-on dildo. Você adorava. Safada, você adorava fazer um homem gozar o enrabando. Era o supra-sumo do prazer, não era? Pode parecer estranho, mas eu me apaixonei por você exatamente por tudo isso: por sua loucura, por sua ingenuidade, por suas criancices, por sua falta e exagerada experiência, por seu amor por sexo, por causa da sua voz de criança que me encantava. Dizia que era a coisa que mais gostava de fazer: sexo. Era o momento em que se sentia mais feliz. Mais realizada. Mais. E quando gozava com alguém comendo seu cu então, aí gritava para todo mundo ouvir (os vizinhos estranhavam...) que era feliz, que era muito feliz, que era a pessoa mais feliz da face da terra. Era a pessoa mais feliz da face da terra porque estava gozando dando o rabo pra pessoa que mais amava no mundo: eu. Mas antes disso, eu me apaixonei por você porque vi em você o que não vi em nenhuma das muitas mulheres idiotas que conheci. Das mulheres que não sabiam (nem imaginavam) o quanto podia ser bom (transcendental, diria) dar dar e dar. Você sabia disso. Você sabia que para se sentir viva você tinha que gozar. Gozar muito. Gozar a toda hora. Gozar freneticamente. E gozava, sem o menor remorso por estar gozando, seja com quem for, ele, ela, velho, adolescente ou com seu primo de 11 anos (lembro que me disse que usava ele pra te fazer gozar, o que aconteceu muitas vezes, sobretudo naqueles momentos em que ele era a única opção. Esperta, você...). Você deveria ter entendido que foi por tudo isso que me apaixonei por você, amor. Por que não entendeu? Te falei tantas vezes. Você era especial (e de um especial que fugia de todos os padrões normais ou até mesmo anormais). Apesar da idade (ou por causa da idade?), você já era uma ninfomaníaca assumidíssima, e eu adorava esse detalhezinho. Você gostava de dar. Você gostava de falar que gostava de dar. Você gostava de falar, para mim, que gostava de dar. Você gostava de dar, mas sobretudo gostava de dar pra mim. Para os outros, para a sociedade, você era uma santa, uma virgem, uma virgem que demoraria muito para perder a virgindade – era o que os seus sorrisos pueris, a sua carinha branca de anjo, o seu corpinho em formação (apesar dos seios avantajados) diziam. Eu adorava isso, sabia? E, por incrível que pareça, não havia em você o mínimo de hipocrisia, dissimulação, falsidade. Você era aquilo, sim – aquele anjo, aquela criança, aquele sorriso que encantava os pais, os avós, os tios. Mas por trás daquilo, você era a mulher (mulher?) mais safada que conheci em toda minha vida de – hoje – 30 anos completos. Como podia, eu me perguntava em minha confusão, um serzinho tão novo, com tão pouco tempo para as experiências da vida, ter toda essa consciência da sua própria finitude? E era por isso que você dava dava dava dava. Sabia que um dia, a qualquer momento, poderia morrer. Não queria perder tempo. Não podia perder tempo. Não perdíamos tempo. Não perdemos tempo. Desde aquele momento em que decidi (após dois anos de indecisão se devia ou não) ir para São Paulo, e fui, e te vi, e você sorriu, e eu sorri, e começamos a rir convulsivamente, não perdemos mais tempo. Dali, com alguns minutos de risos e conversas, fomos para um hotel no centro velho da cidade, te apresentei como minha prima (a sua mãe já estava chegando, falei pro atendente, que nos olhou desconfiado), e metemos, metemos, metemos. Suamos como se tivéssemos corrido três horas debaixo do sol. Molhamos toda a cama, com suor, saliva e gozo. Sobretudo com o seu gozo. Nunca, em minha pequenez, imaginaria que uma mulher (mulher?) conseguiria gozar tantas vezes em um só dia. Você gozava. E toda vez que gozava, me arranhava, puxava meu cabelo, me dava socos, rasgava os lençóis. E ao invés de cansar após o gozo, você se revigorava, e pedia mais, e queria mais. Quando já não suportava mais tanta dor na boceta, fruto de horas de penetração, de vai-e-vem, você fazia eu comer seu cu só para não perder a chance de dar, de gozar. Não podíamos perder tempo. Não perdíamos tempo. E quando, após horas e horas e horas, não agüentava mais dar o rabo por estar doendo demais da conta (como você falava sorrindo), você – gulosa – caía de boca no meu pinto mole. Por incrível que pareça, após horas de sexo muitas vezes selvagem, ele ainda levantava, e te dava o prazer e o mel que tanto queria, a boca ansiosa, abertona. Não saía quase nada dele. Mas você fazia a festa com aquele pouco. Deixava o pouco de gozo, de esperma, do mel em sua boca por vários minutos, lambendo e deslambendo, até enfim engolir, o que fazia sorrindo. Você sempre sorria quando estava transando. Eu me apaixonei ainda mais por você exatamente porque você sempre sorria quando estava dando, quando estava chupando, até quando estava dando o cu, aquele cu tão apertadinho, de menina virgem. Por mais que você dava, as suas entranhas sempre pareciam virgens, e esse era um dos mistérios que me incomodava. Como conseguia ser tão apertadinha, ser ele tão apertadinho, e ter uma boquinha, mesmo abertona, tão pequena, a ponto de custar caber meu caralho nela? Você ficava triste por conseguir engolir apenas a metade do meu pau. Quase chorava. E eu, por isso, me apaixonava mais ainda por você. Ao ver uma lágrima quase cair do seu rosto só porque queria porque queria engolir todinho meu cacete, e não conseguir, eu ia me apaixonando perdidamente por você, e me apaixonar como nenhuma outra vez aconteceu, nem mesmo com mulheres mais velhas, mais bonitas, mais gostosas, mais cultas e mais inteligentes. Antes, quando ainda não nos conhecíamos pessoalmente, eu ia me apaixonando por você à medida que ia se mostrando exatamente do jeito que era, com toda sua – diria essa nossa sociedadezinha hipócrita – podridão. Sua podridão me encantava, Letícia. Saber que você ora era hetero, ora era bi, ora era lésbica, ora gostava de chupar um pau, ou de chupar uns peitos e uma bocetinha raspada, ora gostava de comer suas amiguinhas, ou de ser comida por elas, ou ainda de comer seus amiguinhos afeminados – saber de tudo isso era como estuprar sua alma. E ao estuprar sua alma, eu ia me sentindo o dono dela. Isso tudo longe de você, eu em Minas, você em São Paulo. Eu entre árvores secas. Você entre prédios, no centro da maior cidade da América Latina, dando pros seus amiguinhos adolescentes com as janelas abertas, lá do décimo andar, para deleite dos tarados dos outros prédios, que se masturbavam freneticamente ao ver vocês. Só perdoei tudo isso porque um dia, eu sabia, iríamos fazer a mesma coisa, ou coisas muito “piores”. E fizemos. Sua primeira prova de amor, lembra?, foi oferecer todas as suas melhores amigas adolescentes (tudo entre 15 e 17 anos) para eu comer, o que fiz como se fosse a última coisa que faria neste mundo. Todas elas davam para mim e você somente assistia, se masturbando, se deleitando com tudo aquilo, no fundo orgulhosa por saber que o seu namorado, só seu (embora por um momento estivesse penetrando, uma por uma, todas aquelas amigas suas), era um puto na cama, o maior puto da face da terra, como você adorava falar. Você se orgulhava porque sabia que todas as suas amigas depois da suruba iriam querer repetir, provavelmente não a suruba, mas o sexo comigo, com o seu namorado, com o seu homem. Logicamente que você não permitiria bis. Não seria burra de deixar eu comer mais de uma vez aquelas amigas adolescentes loucas para achar um homem que as comesse todo dia, toda hora, em todo lugar e sob todas as posições possíveis e impossíveis. Um homem que as fizesse gozar como nenhum adolescente de 17 anos seria capaz. Não te falei, Letícia, mas todas as seis me ligaram depois, sem você saber, querendo querendo, e querendo mais. A Juliana (experiente engolidora de porra, apesar dos seus – apenas – 16 anos) foi a que mais me ligou, me procurou, até me chantageou, chorando, para que eu a fodesse, a comesse, a estuprasse, a fizesse mulher, enfiasse com tudo minha pica no seu cu largo (essas foram as palavras que ela mesma usou, acredite). Desesperada, chorando no telefone, gritou de lá que falaria pra Deus e o mundo que eu era o maior veado da face da terra e que tinha a estuprado e que tinha broxado ao tentar comê-la, entre outras coisas incoerentes. Nesse exato momento percebi, Letícia, a sua superioridade em relação àquelas suas amiguinhas adolescentes filhinhas-de-papai, que inclusive achavam, coitados, que elas eram virgens até hoje, até de boca, até a medula. Ah se os pais soubessem o que são na verdade seus filhos. Melhor mesmo que não saibam. Pagam uma fortuna em colégios particulares e o que mais os filhos aprendem lá (não necessariamente lá dentro) é a serem pervertidos, bissexuais, emos, veados, bixas loucas, putinhas de grife, pós-modernos ultra-superficiais, consumidores (tanto homens quanto mulheres) de pênis de borracha com escroto, mas sem a sua profundidade, Letícia. A sua transcendência me assustava, Letícia. A sua transcendência me encantava. Era sua podridão junto com sua transcendência (com aquela profundidade que não condizia de modo algum com uma adolescente de 15, 16 anos) que me deixavam perplexo. Hoje sei que foi exatamente isso que me fez me apaixonar por você. Eu não queria mudanças, Letícia. Eu não queria te imaginar como todas as suas amiguinhas adolescentes consumidoras histéricas de boys band. No fundo, eu imaginava que seria impossível você chegar (regredir) a esse ponto. A perversão das suas amigas era fruto de uma época e uma geração sem muitos moralismos, de muita liberalidade e de muita curiosidade adolescente. A sua perversão era a razão da sua existência. Gozar era a razão do seu viver. Não haveria Letícia sem os seus orgasmos múltiplos e diários (não aceitava viver um dia sem gozar), sem os seus espasmos, sem sua paixão pelo corpo tanto masculino quanto feminino, embora – como costumava dizer – não conseguisse viver sem um pênis grosso. Você foi, sem saber, uma das maiores adoradoras de Deus, porque adorava tudo que sua mais importante criatura possuía: adorava uma boca de mulher; um pescoço de homem; os seios de mulher; um belo tórax de homem; barriga de ambos; costas de ambos; bumbum de ambos; uma bela bocetinha raspada; um pinto grosso (fazia questão...) e bonito; umas belas pernas de mulher; os pés femininos. Letícia, por quê? Por que estragou tudo? Você se tornava mais fria, mais feminista, mais insensível, mais “madura”, mais cheia de frescuras e teorias, e não percebia que se estragava com toda essa baboseira. Deixar de chorar porque queria porque queria ter uma boca em que coubesse todo o meu pau, sem sobrar um só centímetro, me decepcionou tanto. Você não sabe o quanto. Eu matei você, Letícia, não porque me condenaram a vários anos de cadeia (isso não faz a menor diferença) por causa do nosso amor imoral, mas porque ao deixar de ser você, ao se parecer demais (e isso estava acontecendo aos poucos, sem você perceber) com todas as outras mulheres idiotas da sociedade, eu ia deixando de amar você. Eu não suportei – eu não suportava – a idéia de deixar de amar você. A única forma de voltar a amar você como antes, quando ainda havia em você a capacidade pueril de chorar por causa do tamanho pequeno da sua boca diante do meu pau, era matar você, porque morta você voltaria a ser a minha Letícia, na minha imaginação pelo menos, a Letícia por quem me apaixonei loucamente. E deu certo, amor. Voltei a amar você como antes, acredite. O plano funcionou.