Amigos do Rogers

3 de setembro de 2011

Um vôo entre as estrelas e o chão


(Ilustração de Gabriela Pas)


Por Rogers Silva


Dentro do quarto pequeno nosso fazíamos um universo, o nosso universo, a imaginação minha e sua se fundiam para nos amarmos sempre e mais.
(Amor-perfeito, ROGERS.SILVA)


A dúvida é comparada ao vento de morte e de ruína, li em algum lugar isso. Onde? Não sei. Não lembro. Não quero lembrar. Foda-se. Fodam-se todos vocês, norte-americanos ou não! Essa nossa televisão norte-americanizada! Estados Unidos pra lá, Estados Unidos pra cá, cachorrinho do Bush, terroristas (como se eles não fossem), aqueles filmes retardados e retardantes. Um bando de imbecis que se acham os dez. E nós, os sub-imbecis. Deixe-me só, deixe-me respirar, posso? Então ela foi vindo vindo, chorando e eu pensei, pedirá mais o quê? Só sabemos pedir. Não, ela não. E dar? Não dar sexualmente falando, porque assim ela medava muito, toda hora, eu era o dono (exclusivo?) do seu corpo. Nunca vi gostar de dar como ela (seria só pra mim?). Insaciável. Posições diversas. Novidades sempre. Ninfomaníaca. Todo, todo o seu corpo era meu. Porra! Televisão dizendo da guerra do Iraque (Bush o quê?! Que W. Bush morra com um tiro na testa. O mundo ficaria um pouco melhor. Os deuses com a sua não interferência agradeceriam) e a propaganda dizendo pra eu comprar isso aquilo este esse e aquele compre compre alugue você pode é a sua chance! Não tenho dinheiro pra isso tudo, seus filhos duma puta! Não percebem que não temos dinheiro pra tudo isso?! Somos brasileiros! Desligo-a. Melhor. Por que, meu amor? Por que, Josi? Ela veio vindo me beijando a boca, o rosto, o pescoço, seus lábios sobre minha pele negra, tirando minha camiseta, descendo a boca até tirar minhas calças e... suada e eu suando também, gostando também. A música (Ando tão à flor da pele: qualquer beijo de novela me faz chorar) que eu escutava não tinha nada a ver com o ambiente de amor e prazer que se criou quando ela entrou sorridente e sensual por aquela porta vestida com uma calça jeans que ficava maravilhosamente bem em seu lindo corpo e uma blusinha que apertava seus seios grandes (Barco sem porto, sem rumo, sem vela). Como ela era linda e gostosa. Sim, gostosa. Com uma boca linda e gostosa. Os seios, a barriga sem excesso, o quadril maior que a cintura não muito grande. Morena bronzeada, os olhos sensuais e verdes. E a boca grande linda de Angelina Jolie. Não perdia em beleza para a atriz. Só não fazia filmes, mas fazia sexo como ninguém. E como gostava! Seria amor? Ou puramente sexual o nosso caso? Três anos sexualmente ativos, os dois, um querendo mais que o outro (Oh, sim! eu estou tão cansado). E ela entrou séria mas fez quase tudo o que sempre fazia. Por que está mais recatada?, tinha vontade de dizer. Por que, Josi? E o nosso pacto de prazer sem restrições? Ela veio, tomamos um refrigerante, mas nunca tomávamos nada!, enrolamos um pouco, um pouco que se tornou muito e eu com vontade, a excitação aumentando aumentando e fui ao sofá em que ela estava sentada com as pernas cruzadas, mostrando-as abertamente, essas pernas brancas porém bonitas. Fui a ela, dei-lhe um beijo animal, forte e ela gostou da minha atitude. Eu estava acostumado com isso. Fizemos sexo, sexo e não amor, durante uns cinqüenta minutos. Apesar do longo tempo, sexo ruim. Estava muito, mas muito recatada. Saiu alegre, ela. Eu, não. O gozo anterior transformou-se em náusea para mim. Náusea. No outro dia ela veio vindo, negra, a negra mais linda que eu já vira, os cabelos longos e encaracolados, o rosto mais perfeito do mundo, sem manchas sem espinhas sem falha alguma. O corpo lindíssimo, magro e lindíssimo. Nua, escultura. Defeitos físicos, se tivesse, não os vi. Seu charme tentando me impressionar, e impressionou. Mas Josi! Por que tão diferente? E agora, nada de sexo oral? Por quê? E outras vezes viria, ela. Ela? Quem? Ruiva, morenas ao monte, poucas loiras e algumas negras. Sempre bonitas. Todas. Nunca fiquei com mulher feia. Sou bonito e exijo que pague na mesma moeda: com a beleza e os saberes sexuais, importantíssimos. Se não, está descartada. Mas Josi estava à minha altura: eu, um metro e oitenta dois e ela, um e setenta e sete. E vinha vinha mesquinha, não gostando do meu apartamento, mas aqui?, sentou, ofereci algo mas ela não quis, não seria capaz de beber algo que não fosse puro. Essas ricas! E ainda casada! Gosto delas, dessas falsas puritanas, doidas por sustentar uma imagem: a Virgem Maria. Se chamava Maria mas não era mais virgem. Talvez com o marido fosse, mas comigo não. Comi muito. Alguns dias, de três a quatro vezes. Como ela gemia! Por quê? Mas Josi! Nunca foste assim! E o verbo foste embelezou o que era sujo e feio. A Maria casada tudo que não fazia com o marido fazia comigo, como gostava de chupar! Mas sempre olhando pedindo aprovação. Josi não era assim, ela vinha sempre alegre alegre e sensual e querendo querendo até não agüentarmos mais. Mas agüentávamos. Sempre agüentávamos e nunca era o bastante. Sempre nos queríamos e nunca foi o bastante, nem para mim nem para ela. A casada me ligando me procurando pra sexo só sexo e sexo e nada!, e assim foi durante uns oito meses, até eu enjoar. Me enojei também da negra (e não digam, seus retardados, que era racismo!). Era apenas cansaço de tudo isso sem amor sem paixão. Apenas o prazer. E aquele oco. A negra que antes, nas primeiras vezes, não gostava de sexo oral. Sim. Depois gostou, aprendeu como ninguém. Sempre começava pelo meu órgão, depois puxava a minha cabeça para o seu. Peles negras se encontrando. Chorou quando eu disse a ela que não queria mais, nunca mais, entende! Chorou porque nunca mais daria o prazer que sempre lhe dera. Sentiria falta, como não? Eu, o expert em mulheres e seus mistérios sexuais. Um choroi nteresseiro. Apesar, a dispensei. Não te quero mais! E a noiva evangélica veio um dia, pela primeira vez, disse que vinha porque por que mesmo? Não lembro, só sei que veio, a puritana (puritana não sei, mas virgem, disse). Percebi quando tirei sua virgindade. Embora demonstrasse dificuldade, eu consegui. No sentido sexual, eu consigo tudo de uma mulher. O segredo? Paciência. E falsidade. Com a noiva virgem tive que beijar uns vinte minutos sua boca, mais uns dez o rosto o pescoço e a orelha até descer para os seios pequenos. Tinha vergonha do corpo, mas isso não foi grande problema. Beijei sua barriga e a virgem gemia. Olha que ainda nem tinha beijado seu sexo. Sexo? Mas beijei, além de descer para as pernas magras, morenas, brilhantes, mas natural, não eram bronzeadas. Demorei umas duas horas para terminar o serviço. Apenas duas horas para tirar todo seu pudor. E sua virgindade. Nua ao meu lado, na minha cama, ela sorria. Eu virava o rosto, disfarçadamente, para não ter que lhe oferecer o meu sorriso. Fiquei mais de um ano com ela. Continuava virgem do noivo, dizia. Só dera para mim. Eu fora o primeiro e o único. Estou honrado, dava vontade de dizer. Mas não dizia, não tinha vontade nem de conversar, às vezes. Outro dia ela foi vindo, avisou que viria, tinha a chave, entrou sem eu perceber e já foi logo me beijando forçado (gostava, a noiva virgem, dos beijos forçados, agressivos). Era tudo que eu não queria: ela viesse com aquela cara de insatisfeita sexualmente, de imatura sexualmente, de bitolada sexualmente. Assembléia de Deus, isso? Sim, era a igreja onde ela ia... comi-a, nesse dia, apesar de tudo, e duas vezes. Gozou, ela, duas vezes. Suada ao meu lado, na cama, me olhava, já apaixonada e disse: Larguei do meu noivo. Meu Deus!, pensei. E daí?, deu vontade de perguntar. Evitei falar alguma coisa. Ela percebeu o meu silêncio, o meu característico silêncio. Pela primeira vez teve iniciativa e tirou minha roupa que eu pusera pouco antes e caiu de boca, ao pé da letra. Foi horrível. Nunca sentira um sexo oral tão mal feito, babado. Eco. Tudo me causava nojo. Mas... e Josi? Josi já era uma miragem há muito. Lembro de quando nos conhecemos e ela disse quando eu disse que não acreditava em amor: Vou fazer você acreditar. Fez? Conversava tanto! E de um modo tão natural, sem forçação de barra. Tudo tão natural! E eu, desde o primeiro momento que a vi, na praia, fiquei admirado. Como era linda! De sutiã, nua, com roupa (e qualquer uma), como era linda! Contemplava-a muito. E a olhei quando veio vindo chorando chorando, será que ficou sabendo algo de mim?, pensei. As lágrimas caindo dos olhos verdíssimos pela pele morena, lisa, seca, sem mancha alguma, ou cravos. Apesar de tudo que você faz, eu te amo, eu te amo!, entrou dizendo e me abraçando. Nunca a vira assim, resignada. Sempre fora forte; não áspera, ao contrário, sempre carinhosa. Agora sofro toda a idealização que fizera de mim, e eu dela. Nos adorávamos juntos, sempre, a todo o momento. Batem na porta e não atendo. Bate, bate. Sei que é mais uma mulher daquelas que exigem um príncipe encantado mas é feia, dura, ruim de cama e, como sempre, carente. Sempre carentes, elas. Por carência elas fazem tudo: dá pra outro (traem), matam, abandonam pai, mãe e filhos. E se dizem inocentes, as falsas. Justificadas, as dissimuladas. Não as agüento mais! Foi-se minha paciência junto com o meu amor. Foram-se. Para onde? Onde procurá-los? Por onde andar e encontrar a alegria fugaz mas antes existente? Não há saídas. Só há lembranças. E lembro da morena desprovida de vaidade que conheci uma semana atrás. Por incrível que pareça não a levei ainda pra cama. Não demorará. Mas na boate onde nos beijamos pela primeira vez ela já foi logo pegando firme, se é que vocês me entendem, olhe, não sou vaidosa mas sou gostosa e fogosa! Em pleno século XXI há ainda mulheres que não usam batom, não se maquiam, não se disfarçam? Sim, há: ela. Mesmo assim e talvez por isso se torne tão bonita, a morena clara, cabelos lisíssimos, brilhantes, bem tratados. Um corpo bonito e uns olhos mel. Muito bonita. Não demorará que ela me ligue e depois gema aqui na minha cama. Mas ela tem namorado, foi o que disse. Foda-se. Problema dela. Eu não tenho. Só as lembranças... Quando Josi veio vindo chorando, pela primeira vez entrou chorando no meu apartamento, sempre entrava feliz, sorrindo, quando ela veio vindo me abraçando, pensei: O que será? Eu te amo eu te amo eu te amo, saiba, insistia em dizer. Sei, murmurei. E eu também. Mas..., começou. Não terminou. Por quê?, perguntou. E eu sabendo do que se tratava falei: Você é insubstituível. Fomos para a sacada. Quantas vezes fizemos amor ali, à noite, na sacada. As estrelas e o chão, pólos distantes. E nós, no décimo quinto andar, no meio. Ficamos ali olhando as casas que se estendiam e outros prédios. E as luzes já acesas. O sol se fora. Josi mais calma. Eu, evitando tocar no assunto, e lhe perguntar porque estava chorando, disse: Vou pegar uma água pra você. Fui. Uma semana antes ela me falara algo, mas sorrindo. Deixa de bobeira, eu respondera. Não fale isso. Mas no fundo vaidoso por ouvir algo assim. Lembrei disso, esqueci a água, corri e Para Eliza de Beethoven tocando no vizinho, corria corria corria à sacada. Meu Deus! Tropecei na mesinha no meio da sala. Josi! Josi! A resposta: um grito já distante.
E lembrava de quando ela (sorrindo) me sussurrara, sua forma de dizer eu te amo: Por você... Por você eu me mataria.