Amigos do Rogers

21 de novembro de 2011

Amor-perfeito

Por Rogers Silva


Com esse amor ganhamos força para enfrentar (juntos ou separados) o futuro. As (im) perfeições do nosso amor – Rogers Silva


Meu lindo, quando estamos juntos, deitados, um vigiando o outro apesar dos olhos direcionados às estrelas que brilham com um azul claro especialmente para nós, sinto que com você a vida flui, a vida se existe, não precisamos inventá-la ou reinventá-la a todo instante durante toda a eternidade, é só estarmos próximos que tudo acontece sem interrupções ou complicações ou jogos amorosos, meu Gabriel, amor existe sim pois no quarto ou no céu é, e era, a mesma intensidade de não querermos parar nunca nunca, pra que parar, meu anjo, se é isso que nos faz vivos, quando as mãos se entrelaçam sem se aperceberem do ato, quando as bocas se encostam naturalmente e nos deparamos no deserto da Arábia, o sol nos fazendo companhia, e a areia, e sozinhos, nos completando sem necessidade de ninguém mais, pra quê, alguém que aqui estivesse não entenderia esse amor, eles não entendem o amor, Gabriel, eles nunca entendem nada, eles sempre complicam tudo, eles se odeiam como nós nos amamos. Cometas e eclipses foram feitos para nós, nós dois, e se cometas não caem na Terra é porque sabem que aqui estamos nos amando, e porque assim foi determinado, sempre nos amando, e se alguma vez a lua se sobrepuser ao sol, minha luz, o espetáculo é nosso sim, é para nos vangloriarmos, porque tudo foi feito para nós, basta querer, basta querer que o mar caiba aqui nessa minha mão fechada e ele caberá, e juro que nenhuma gota cairá, não deixarei nenhuma gota cair para poder te presentear o mar, o mar inteiro, todo o mar que existir só para você, somente para você, vem, pegue, aqui está o mar na minha mão fechada, vem logo meu amor, vem logo senão ele pode secar. E se todos foram embora, veja, a praia está deserta, é porque ninguém agüentaria tanto amor, afeto, carinho ou o que quer que seja, se é que tenha nome, palavra alguma traduz o que nem o próprio coração consegue exprimir, algo que todos os poetas jamais conseguiram, aqui estamos na praia, sozinhos, não há estrelas no céu, a lua desapareceu por trás de alguma nuvem, o vento ainda não soprou, mas estamos juntos, as mãos entrelaçadas, calados, palavras são desnecessárias, palavras são sempre desnecessárias, amor meu minha luz, veja a imensidão, logo ali o sol amanhã surgirá, mas esqueça o horizonte, esqueça o amanhã, o amanhã não existe. Quando o apocalipse sobreveio, se lembra, carros caminhões motos pessoas sinaleiros caídos roupas jogadas cachorros mortos cadernos poeira outdoors caídos vasos sanitários, bolas de fogo voando pelo céu avermelhado, quando tudo era ruína, e o sol estava lindo, brilhoso, de irônico que é contrastando com o quadro, estávamos lá, destacados e abraçados ante o brilho do sol, que só ali no céu permanecia para nos alumiar, nós éramos a razão da luz onde luz já não havia, nós éramos a razão da vida onde vida já não havia, e todos corriam não se sabia para onde, e todos se desesperavam não se sabia exatamente por quê, e todos se descabelavam, todos, exceto eu e você, porque eu e você nos amávamos como nunca havíamos amado antes em outro lugar ou situação, ruína existe para quem não ama, ruína não existia para nós. Flores e flores e flores são o nosso presente, o nosso presente hoje, primavera minha, flores existem para nós dois, e se existe beleza é porque eles por maldade querem nos presentear com o melhor que podem dar, apesar de pouco comparado ao nosso amor, que é maior que o céu, maior que o mar que consegui trancar na minha mão e te dar, maior que o sol, escravo nosso, maior que o deserto onde nos amávamos sempre, maior que a morte, a morte não existe, Gabriel, a morte não existe para quem ama como nós amamos, como nós nos amamos. Te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo, e falaria te amo um milhão de vezes se tempo houvesse, mas não há, não porque sou ingênuo ou exagerado, mas apenas porque te amo, só isso, nada mais. Nada é capaz de traduzir a nossa história face à História, que enquanto acontecia nós nos olhávamos encantados, e então tudo não fazia sentido, nada faz sentido além de nós, do nosso amor, revoluções e descobertas científicas e burguesia e guerras e explosões e bombas atômicas e ditadores e mais guerras e conflitos e independências, tudo não é nada frente ao nosso amor, porque nós nos anulávamos quando estávamos juntos, nos alienávamos, alienação que era libertação, mas os Domínios não entendem, eles nunca entendem um centímetro além do próprio umbigo e da obediência cega, porém nós, nós nos detínhamos no umbigo do outro, o seu umbigo era mais importante que o meu para mim e o meu umbigo era mais importante que o seu para você, e brincávamos, ríamos, meu dedo menor fazendo cócegas no seu umbigo fundo. Diferentemente de outrem, obedecemos tão-somente ao nosso amor. O nosso primeiro beijo foi acompanhado por músicas do universo que cantava enquanto nos beijávamos e nos abraçávamos e nos tocávamos, nada era capaz de nos separar porque a música em dó maior que o universo cantava e tocava com a ajuda de outros anjos orgulhosos era maior, maior e em dó maior, e o nosso primeiro beijo durou dias e dias e os senhores nos olhavam e estranhavam o beijo duradouro, um intervalo podíamos ter separado entre o beijo para dizer-lhes que o amor seria mais duradouro muito mais duradouro que o beijo, nosso primeiro beijo. Porém nada era capaz de nos separar, meu Gabriel meu anjo, mais lindo que todos os anjos que Deus criou, se porventura conseguiu criar depois de perplexo ver você pronto. Caso eu diga um dia como vou dizer agora que vivo por você estarei mentindo, estarei omitindo a verdade, que nada mais é que não apenas vivo por você como seria capaz de morrer por você, meu amor. E se um dia eu fechar os olhos e meus olhos permanecerem fechados por mais de quinze horas é porque morri, me mataram, e se não foi por você é porque merecia algo melhor do que minha morte, que seria anulação total se não fosse minha capacidade ilusória de enxergar mais vida com você mesmo depois da morte, depois da nossa morte. Optamos pela finitude, lembra. E não me arrependo. Estejamos preparados então. Se às vezes exagero, exagero é pouco frente às palavras que sabíamos antes mesmo que o outro esboçasse os lábios para dizer te amo ou te adoro ou simplesmente Gabriel, sim meu Lúci, nome lindo, apesar do peso que incide sobre ele e suporta altivamente você sempre será meu Lúci, mesmo que duas palavras tão simples como essas não consigam revelar a essência do que é sentir com toda capacidade possível algo sutil e ao mesmo tempo transcendental a ponto de eu não poder dormir sem ouvir você dizer nos meus ouvidos embora longe que eu sou seu Gabriel, o único amor verdadeiro que passou pela sua vida então mesquinha até a minha chegada, quero ouvir você falar, Lúci. Embora possamos voar, preciso ouvir o telefone tocar às três da madrugada, e ouvir sua tenra respiração e sem ao menos falar alô sei que é você, que se tá acordado até agora é porque não conseguiu dormir quando a memória é traiçoeira e pensa só em mim, seu único amor, e mesmo se não for verdade, de eu ser o único, vou morrer acreditando pois foi você quem me falou, e vi brilho no seu olhar quando falou, sei, tentando me agradar, como sempre tentando me agradar, e eu amo isso, eu amo suas atitudes milimetricamente pensadas para se encaixarem nas minhas, às vezes nas futuras atitudes minhas. Meu Lúci, se me entrego inteiro a você e se me entreguei inteiro tão-somente a você, a despeito de toda hierarquia do céu contra nós, é porque foi o único capaz de fazer me entregar totalmente, simples assim, e se sonho dizendo amor amor amor são resquícios do nosso amor, da entrega mútua que sempre renovamos, que manhã a manhã, tarde a tarde, noite a noite renovamos, saiba, você é lindo. Dentro do quarto pequeno nosso fazíamos um universo, o nosso universo, a imaginação minha e sua se fundiam para nos amarmos sempre e mais, e estrelas caíam em cima de nós, foguetes eram soltos, todas as lindas músicas do universo eram tocadas, três luas no céu apareciam quando espalmadas minha mão e a sua se encontravam e nossos olhares se baixavam, dois sorrisos espontâneos surgiam, e levantávamos a outra mão e com olhos fechados tentávamos fazê-las se encontrarem, e se encontravam, visto que já sabíamos antes de nascermos o destino de nossas mãos, a minha ao encontro da sua, que é cheia de vigor, cheia de vida. Quando inventaram a distância, o tempo e a velhice com o único propósito de tentar nos deter, eu e você, meu Lúci, inventamos o abraço, o presente e a jura de que morreríamos só se fosse por amor e nos encontraríamos apesar das lutas dos deuses em outro lugar apesar da luta de classes em outro lugar apesar das lutas dos homens em outro lugar apesar dos infinitos pesares que nos inventaram em outro lugar. Quando enfim encontramos a fonte da imortalidade e eles, esses senhores com sua vidinha cotidianamente medíocre, eles que não aceitam um milímetro de intensidade além do que sua realidade oferece, eles os mesmos todo dia e sempre porque optaram pela vida eterna e tediosa, os Domínios perguntaram o que preferíamos, se a eternidade separados ou se juntos com a condição de logo nos “separarmos” e nunca mais nos encontrarmos, sorrimos, nem foi preciso responder, eles já sabiam a resposta. Estava feito o pacto. Entre eles e nós, o pacto. É preciso a força de muitos trovões e relâmpagos para nos separar quando estamos juntos e abraçados ou nos beijando e nos amando, uma vez que nem três relâmpagos seguidos conseguiram o feito quando estávamos em cima daquela montanha nossa que era linda e é pois nem o céu nem o mar que muito subiu conseguiram a proeza de eliminá-la, era nossa, e só nossa, e tudo que é nosso não será destruído sem a nossa permissão, juramos, lembra. Você é lindo. E se sorrio é porque tenho a certeza de ouvir você dizer até se cansar, e você não se cansa nunca, que vai me amar até os doces de leite do mundo inteiro se acabarem, logo depois que disse isso comprou todas as fábricas de doces de leite com o intuito de dobrar triplicar multiplicar os doces de leite do mundo, espero que consiga, espero que consiga porque se não conseguir morro, morro pois não sei viver sem seu amor, não saberia viver sem ouvir você dizer que odiava mas que agora adora doce de leite. Não saberia viver sem suas falsas crises de ciúme já que tem certeza que sou só seu, e nunca serei de outro além de seu seu seu, não saberia viver sem a força de me sentir amado por você, não saberia viver sem suas caretas engraçadas que me fazem rir quando já não agüento mais de tanta felicidade por estar perto de você, não saberia viver sem você quando o mundo que nos rodeia nada mais é para mim do que figurante, mero e insignificante figurante. Quando ouço a música do universo, a música irônica que ele inventou para nós dois, Que sejam eles um Que sejam eles um, mas somos, penso na sua voz a mais linda de todas me dizendo que você é dois porque além de você, você é eu. E não canso. Nunca canso. E se canso, é só você dançar para mim mesmo muito mal como você dança que me renovo, pois quando te vejo dançar todas as outras coisas desaparecem, exceto o meu riso escancarado de graça de ver você se exibindo tão mal para me fazer sorrir como só você soube, e sabe. Ou, se preferir, embora eu não goste aceito suas cosquinhas no meu subaco, como você fala quando estou triste para me ver sorrir mesmo sem vontade, e consegue, porque você sabe que odeio odeio odeio cosquinhas no subaco mas adoro adoro adoro quando diz isso. Enfim rio, rimos muito. Ainda recordo o momento em que nossas bicicletas voaram e ríamos ríamos, eu ria ao lembrar da promessa remota que você fez, que um dia me ensinaria a voar novamente, e conseguiu, e de lá do alto víamos além das nuvens que ao nosso lado estavam nos olhando as árvores que pareciam brotos de tão pequenas, as pessoas que pareciam formigas de tão pequenas, as cores que juntas formavam uma aquarela, os carros que iam não se sabia para onde, os prédios tão baixos lá do alto, as casas minúsculas, um cachorro que quase inexistente de tão diminuto latia ao nos olhar (só ele nos percebia), latia latia querendo dizer que a felicidade existe, a felicidade existe quando estou perto de você, lembro que completei. E você disse que felicidade é uma palavra que nunca conseguiu e nunca vai conseguir expressar isso aqui que sinto quando estou perto ou longe de você porém pensando em você, meu Gabriel, amor meu anjo meu. Todas as músicas românticas eram pouco, pouco para nós, pouco para nosso amor, que é maior que todas as músicas românticas do mundo, de hoje e de ontem, e nada nada vai conseguir traduzir o nosso olhar, o meu que encontra o seu e o seu que encontra o meu quando estamos dormindo, pois juramos sempre sonhar com o outro, e nos vigiarmos nos sonhos, e conseguimos. Eu consegui, juro. Combinamos, lembra-se, de não haver em nosso vocabulário a palavra Não, exceto quando Não quiser dizer Sim, como quando dizia Não faça isso comigo amor, querendo na verdade dizer Se você fizer assim comigo eu vou me render a você como sempre me rendo quando me abraça. Quero ouvir você falar que quando te abraço eu consigo tudo. Quando me abraça você consegue tudo de mim, sabe muito bem, Lúci, e se falo isso não é porque prometemos como tantas outras coisas que prometemos de nos agradarmos sempre, mas porque é a mais simples e perceptível verdade, veja, fechei os olhos ao sentir seus braços nas minhas costas e adormeci de medo, sim, de medo, porque dois segundos depois você pode tirá-los. Eu não agüentaria. Eu não agüentaria viver com ou sem você, pois sua ausência é tão doída e sei que não conseguirei jamais suportá-la, e sua presença é doída porque a qualquer momento (dois segundos depois) ela pode se transformar em ausência, eu não agüentaria. Perfeição minha, meu Lúci, não agüentaria você longe do alcance de minhas costas, longe dos meus lábios, que são os lábios seus, longe do alcance de meus olhos, que ainda estão te vendo, longe de minhas mãos, que te procuram a todo o momento. Não suportaria ter que perguntar Onde está você pô, onde está você que é meu só meu, onde está você porque se você não está aqui o mundo é normal, a mesmice enfim, porque se você não está aqui não há graça, é um tédio sem fim, pois saiba, Gabriel, criamos o amor num mundo onde o amor não existe, onde está você, Lúci. Onde o mar. Onde o deserto. Onde as ruínas. Onde sua voz às três da madrugada. Onde os doces de leite. Onde a dança engraça... Eles estão vindo,

veja, Lúci.

Estou vendo, Gabriel.

O pacto, Lúci.

O pacto.

Lembra-se do que me disse há duzentos e vinte e dois dias, duas horas e cinqüenta e quatro minutos atrás.

Se a felicidade não existe, é preciso então inventá-la, Gabriel.

Sim, foi preciso inventá-la, Lúci.

E a inventamos.

E se fomos nós que a inventamos,

a desinventemos então.

Aqui o seu vinho.

E aqui o seu, tomemos. Prometemos, lembra.

Eles est

Sim eles, sempre eles.

Mas antes aceite uma flor.

Uma flor.

Sim, amor-perfeito, e ela significará que por um instante apenas o nosso amor contrariou aquele que se orgulha de estar acima de todo o principado e poder e potestade e domínio e de todo o nome que se nomeia não só neste século mas também nos vindouros.

Amém.


* Versão publicada originalmente na coletânea Portal 2001, organizada por Nelson de Oliveira.