Amigos do Rogers

7 de novembro de 2011

Pessoas que leem na internet são mais preguiçosas? (ou Adote um folhetim)

Por Rogers Silva

Dizem que internauta é preguiçoso. Dizem que o leitor que lê na internet lê apenas textos curtos: contos, crônicas, micronarrativas, poemas, artigos curtos etc. Enfim, dizem que na internet imagens e vídeos funcionam melhor, o que não deixa de ser verdade, porque normalmente os blogs e sites de imagens e vídeos (em particular, os de humor, os de música, os eróticos e pornográficos) são muito bem acessados, e muito mais acessados, se comparados aos blogs e sites apenas de textos, constituídos tão-somente de palavras (como é o caso d’O BULE, um coletivo literário que prioriza (embora não se restrinja) os textos antes de qualquer coisa).

Esta #malagueta é muito mais uma campanha do que uma crítica ou uma tentativa de polemizar sobre algum assunto em especial. O seu objetivo é incitar os leitores a ler textos longos na internet. O seu objetivo é apresentar aos leitores bons textos longos na internet. É argumentar, sobretudo, a favor dos textos longos divididos/publicados em capítulos, seja a sua publicação semanal, quinzenal ou mensalmente. Enfim, o objetivo deste texto é fazer com que o leitor Adote um Folhetim (Ver Nota de Rodapé).

O conceito de folhetim, neste texto, não se restringirá ao seu conceito limitado. Toda série, minissérie, romance ou novela divididos em capítulos serão considerados, aqui, como um folhetim, independente se possuir um gancho narrativo entre um capítulo e outro. No caso de séries publicadas na internet, normalmente o gancho é temático, e não narrativo. Ou seja, uma série (pelo menos as publicadas n’O BULE) assim se denomina porque discorre, sobretudo ficcionalmente, sobre o mesmo assunto, a mesma temática, embora nem sempre um texto de um dia seja continuidade do texto do dia seguinte (o que pode demorar quinze dias, por exemplo). OBS: No entanto, para ser considerado folhetim ao pé da letra deve haver, sim, esse gancho narrativo ou, em outras palavras, uma interdependência entre os capítulos.

E é essa demora (três dias, uma semana, dez, quinze, vinte dias), a nosso ver, que é o gostoso de se ler séries e folhetins na internet. É como ler um romance do qual esteja gostando muito e, por algum motivo, possa pegá-lo somente alguns dias depois para continuar com a sua leitura. As palavras, as cenas, as intrigas e os personagens ficam povoando sua imaginação, e o leitor fica à espera da continuação da narrativa, ou do próximo texto da série sobre Carambolas Atômicas. E quando há afinidade entre o leitor e o texto (o folhetim) lido, aí que o troço fica melhor: ele (o leitor) fica torcendo por aquele personagem ou, ao contrário, desejando que ele morra na próxima continuação. E não há nada de maquiavélico nisso. Nós somos passionais. E assassinar (ou querer assassinar) personagens não é nenhum crime.

O folhetim, a saber, surgiu na França no século XIX. Logo depois, no Brasil já se publicavam folhetins nos jornais, muito dos quais de enorme sucesso. O folhetim, a princípio, era destinado tão-somente a entreter o leitor. No entanto, segundo a Wikipédia:

A possibilidade das tramas era infinita e buscava ilustrar com realismo e emoção a miséria da condição humana. Apresentavam múltiplas opções de enredo: de assuntos frívolos a sérios, de conversas particulares a acontecimentos políticos. Assim, despertou o interesse das camadas mais pobres pela leitura e colaborou com a construção de uma nova identidade nacional urbana. Acelerou, ainda, a assimilação de modelos de comportamento europeus, tais como o uso do veludo no vestuário, a disseminação do piano como instrumento doméstico e o surgimento de saraus familiares.

Com esse trecho é possível supor (ou imaginar) a importância que o folhetim teve (e ainda tem) no Brasil. No entanto, por puro preconceito ou má vontade, não se é dado a devida relevância a esse gênero tão menosprezado. Esse preconceito vê-se sobretudo em relação aos novos folhetins, os folhetins mais famosos de hoje (as telenovelas), que muitas vezes são criticadas por razões e funções que não cabem a elas. Muitas telenovelas são criticadas por não serem peças literárias de qualidade (ou peças teatrais de qualidade). Para começar, telenovela não é literatura (essa discussão é antiga...). E para terminar, telenovela é um folhetim veiculado num meio (televisão) onde há diversos interesses em questão, se sobressaindo os dos patrocinadores. Então, é preciso analisar/julgar/criticar uma telenovela baseado no que ela é (na grande maioria das vezes, um folhetim romântico destinado a um público específico). Após essa consciência, aí sim as critique à vontade: repetitivas, emburrecedoras, alienantes, saturadas de repetições e lugares-comuns. E o quê mais?

Nos folhetins, uma vez que chamar a atenção dos leitores/telespectadores é o mais importante, normalmente prioriza-se – acima de tudo – a trama. Depois, sim, há a preocupação com a caracterização dos personagens e a descrição dos ambientes. Por último (aí depende muito do autor, seja de telenovela ou minissérie televisiva, seja de literatura), há (se houver...) uma preocupação com a qualidade estética, ou literária, da coisa. Enfim, o folhetim não pode ser julgado por algo que ele não é nem (na maioria das vezes) pretende ser: uma obra-prima da literatura (ou teledramaturgia) universal.

P.S: A título de curiosidade, caso alguém não saiba (o que é muito pouco provável), autores como José de Alencar, Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreta, Nelson Rodrigues (sob pseudônimo), entre outros, foram grandes autores de folhetins. Alguns deles, inclusive, publicaram algumas de suas obras famosas antes nas páginas dos jornais para, só algum tempo depois, saírem como livros impressos.

Mas, como tinha sido dito no início deste texto, o objetivo aqui é muito mais apresentar alguns folhetins e incitar as pessoas à sua leitura do que criticar ou polemizar sobre alguma coisa, que é a essência dessa série, a #Malagueta. Eis, então, alguns folhetins e séries que o leitor pode conhecer, escolher e, por que não?, adotar para sua leitura e deleite:

1) #Malagueta (série) – Com o intuito de trazer à tona e debatê-las sem papas questões pertinentes à literatura, seja os novos caminhos da produção do livro, o seu preço, o seu acesso ou a (re)alocação do escritor na sociedade, a série #Malagueta visa questionar e manter exposto a constantes análises o mundo literário e o que lhe circunscreve.

2) Meus olhos verdes (folhetim), de Rogers SilvaÉ a história de um amor traído. Basta saber se a traição é conseqüência das próprias atitudes do traído, da incomunicabilidade entre os amantes ou do mistério escuro e inexplicável das pessoas. Um leitor mais inexperiente e menos arguto não conseguiria ler senão uma história de uma traição que não tem nada de humano, senão de novelístico. No entanto, nas entrelinhas há uma outra história, mais humana, demasiadamente humana.

3) Breu (série), de Geraldo Lima Representa uma tentativa de mergulho nos desvãos da mente humana, no seu lado obscuro. Busca o máximo de concisão, procurando não ultrapassar o limite de cinco linhas. É como compor sonetos ou haicais, o que exige do autor um esforço redobrado: meter nessas cápsulas literárias o máximo de voltagem narrativa.

4) Nacos de necas & Outras histórias (série), de Claudio Parreira – O que se percebe logo de início em Nacos de necas é uma tentativa quase desesperada em dar o máximo de informações com o mínimo de palavras. Talvez daí a epígrafe do filósofo holandês H.P. Bruesch, que afirma que usa no seu silêncio apenas as palavras que gritam.

5) Juca Brasil (folhetim), de Ricardo NovaisO personagem é um herói brasileiro, muito humano, que percorre todo o país prestando auxílio aos que necessitam de conforto de toda ordem e categoria. No entanto, embora trata-se de um herói com poder para salvar todo um povo, mal consegue abotoar a própria capa de super-herói.

Alguns adotam crianças. Outros, cachorros. Muitos adotam amigos de filho ou sobrinhos. Cinco folhetins foram apresentados ao leitor. Faça uma boa ação hoje: Adote um folhetim (campanha de incentivo à leitura de textos mais longos e publicados em capítulos, seja semanal ou quinzenalmente, por ex., que persistirá enquanto houver autores e leitores de folhetins e/ou pessoas interessadas em participar da campanha, seja como autor, ou divulgador, ou leitor).

O leitor desta #malagueta, agora, pode também participar da campanha. Caso seja autor, deixe o link do seu folhetim (ou qualquer história publicada de forma seriada) nos comentários desta postagem ou, se preferir, nos envie para o e-mail coisaprobule@yahoo.com.br que, após uma breve leitura, a divulgaremos no Twitter, no Facebook, entre outros meios, a fim de que cada leitor adote seu folhetim preferido. Caso seja apenas leitor ou amante da literatura, pode fazer o mesmo e sugerir aquele folhetim que lhe arrebata, do qual não consegue se desprender, porque a cada dia que passa fica à espera da continuação de novas tramas e personagens.

O convite está feito. Vários folhetins, no decorrer do tempo, vão ser pedidos para serem adotados. Agora é com você. Adote um folhetim?


[1] O folhetim (do francês feuilletono) é uma narrativa seriada, sobretudo em prosa de ficção. Possui duas características essenciais: quanto ao formato, é publicada de forma parcial e sequenciada em periódicos (jornais e revistas, inclusive digitais); quanto ao conteúdo, apresenta narrativa ágil, profusão de eventos e ganchos intencionalmente voltados para prender a atenção do leitor.