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4 de julho de 2012

A literatura como mediação e a mediação na literatura

Por Rogers Silva

É sabido que o ensino de literatura é o mais antigo do Brasil, visto que, desde o século XVI, em 1553, os jesuítas iniciaram o curso de Letras na Bahia. Claro deve ficar ao leitor, no entanto, que o ensino era condicionado aos propósitos sobretudo da Igreja. Desde já o “ensino distanciado da literatura” é característico no Brasil, o que se comprova nos  éculos XVII e
XVIII.
A literatura brasileira, como disciplina escolar, data de final do século XIX, após a reforma educacional de Benjamin Constant, em 1889. Porém, como assim o foi e tem sido, o ensino da literatura era pretexto para outros objetivos, a saber: a literatura concebida como “belas-letras”, artefato textual e, sobretudo, para a memorização de autores e suas respectivas obras.
Assim, surgem algumas questões: como tornar o ensino da literatura uma prática social?, como despertar o interesse do estudante para ela?, como aparelhá-la para competir com este mundo predominantemente audiovisual? Pode-se considerar a literatura como prática social na medida em que ela é atividade humana em intenção transformadora do mundo, que expressa o peculiar da relação do homem com o mundo, os modos de ser do homem no mundo. Como, então, a melhor maneira de enfatizar/privilegiar essa relação?
A resposta é simples (ou não): o melhor caminho para se aprender (e apreender) a literatura é a leitura. Ler poemas, contos, romances, crônicas etc., antigos e atuais. Para tal, é preciso um mínimo de bom senso, como, por exemplo: evitar atitudes passadistas; discutir previamente com o aluno a escolha das obras; aliar a literatura a assuntos contemporâneos etc.
Sabe-se que vários são os entraves, hoje, para se conseguir fazer um aluno ler. Porém, em compensação, várias também são as possibilidades de se fazer o aluno se interessar pela literatura. É necessário, antes de tudo, estar ciente dos prováveis objetivos e resultados do ensino da literatura.
Dentre esses objetivos e (por que não?) resultados do aprendizado (aprendizado?, apreensão, gosto...) se destacam: 1) a literatura como um instrumento de conhecimento de mundo (do passado, do presente, da mentalidade de uma época, de outras civilizações); 2) a literatura como “objeto de linguagem”, destacando os seus aspectos estruturais/formais; 3) a comparação de textos literários com não-literários  a fim de destacar suas diferenças; 4) a contribuição da leitura na interpretação e produção de textos; entre tantas outras coisas.
Igualmente relevante é o professor-mediador estar ciente do trabalho que é necessário para alcançar tais objetivos: ter uma biblioteca básica em casa; estar em constante contato com a produção literária contemporânea; sugerir aos alunos livros de literatura e história da literatura; dialogar com outras disciplinas; possuir base de teoria literária (sem tomá-la como ponto de partida), entre outras práticas, são extremamente importante.

A mediação na literatura  
O texto A literatura como mediação, de Leyla Perrone-Moisés, trata da importância dos mediadores culturais (especificamente literários) e sobre a atuação desses mediadores (crítico e professor) na atribuição de valores a um texto literário frente ao aluno.
Para Leyla Perrone-Moisés, literatura não é tão-somente reflexo e/ou documento de questões étnicas, políticas, religiosas, sociais. Literatura é, também, e sobretudo, “uma forma de mediação, e uma mediação pela forma”, ou seja, um texto em que o arranjo, a forma como se diz é tão importante quanto o que está sendo dito, diferentemente, por exemplo, de textos puramente informativos, referenciais, comunicacionais.
Na opinião da autora, “o texto literário é um mediador entre o autor e o leitor, e um mediador que pressupõe uma infinidade de mediações: línguas nacionais, repertórios culturais, pactos de leitura definidos pelo gênero, pelo tom etc.” e, por isso, o professor seria o intermediário entre autor e leitor – uma espécie de orientador de leituras, que deve escolher textos mais complexos diante da quantidade de textos medíocres e, principalmente, não deixando que o texto se apequene, dada a quantidade de leitura interpretativa que se pode fazer dele.
Em virtude, como diz Leyla Perrone-Moisés, da “inexistência de critérios prévios para o juízo” de uma obra literária, no entanto, essa função de mediador de professores e críticos não é fácil. Portanto, dado esse dilema entre cultura de massa e “alta cultura”, objeto de valor e objeto descartável, tecnologia e passado, informação imediata e conhecimento, o professor deve, sem se corromper com a “ordem do vale tudo”, aproveitar todo esse aparato e ideologia modernos no intuito de ampliar seu repertório (e conseqüentemente o do aluno) de ensino e pesquisa.
No dizer da autora, “a literatura que merece ser lida, divulgada e ensinada, é aquela que não faz média com o público, o mercado, a mídia ou a moda”. Por outro lado, é necessário estar ciente de que literatura sem leitor inexiste. Ser erudito não é ser ininteligível. Agradar ao leitor não implica, necessariamente, agradar ao mercado. Ser complexo não é, de maneira alguma, ser difícil (vide, por exemplo, Manuel Bandeira e tantos outros escritores). A intenção de Leyla Perrone-Moisés é boa e, logicamente, válida. Porém, devemos ter o cuidado de não fazer da literatura algo intragável.