Amigos do Rogers

15 de agosto de 2012

As máscaras da sociedade em 'Memórias póstumas de Brás Cubas'

Por Sinvaldo Júnior

Machado de Assis, nascido no século XIX, é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Ele soube usar como ninguém de um estilo completamente original para tratar de questões diversas. Seu estilo e sua originalidade, apimentados pela ironia, nos mostram o escritor como um arguto analista dos valores da sociedade brasileira. Em Memórias póstumas de Brás Cubas são levantadas, por meio desse estilo original, várias questões, dentre elas a problemática nacional, particular do século XIX, mas que persiste como uma espécie de espelho no qual se reflete nossa atualidade.
O gênio Machado de Assis, ao criar Memórias póstumas de Brás Cubas, a priori inventa uma narrativa na qual o contra-senso é o alicerce do enredo, pois existem intromissões do narrador (afronta que dá ritmo próprio à narrativa) que expressam a voz de um “defunto-autor” – originalidade machadiana que, por sua vez, é também um recurso técnico que revolucionou a literatura nacional.
Outro aspecto da originalidade de Machado, em Memórias póstumas de Brás Cubas, é a intenção do narrador de chamar a atenção sobre si mesmo, usando de pilhérias, anedotas, normalmente com o intuito de criticar a recorrente superioridade da classe burguesa brasileira, da qual o próprio Brás Cubas faz parte. Essa sociedade que pretensamente se diz adepta do ideário liberal burguês está, contraditoriamente, alicerçada no sistema latifundiário-escravocrata. Brás Cubas brinca com essa simulação por meio de uma prosa culta, característica do meio em que vive, o que o torna, de certa forma, um narrador (supostamente) crível.
Supostamente crível porque, segundo Schwarz, conforme Brás conta suas aventuras, as suas “fisionomias” mudam, e essas mudanças do personagem fazem com que o leitor pise num terreno volúvel, o que o faz ter dúvidas a respeito de Brás e das suas histórias contadas.
Portanto, ser um “defunto-autor” é uma estratégia usada para enganar/manipular o leitor, pois o “abuso pelo abuso” de Brás Cubas é um exibicionismo de sua própria condição, superior aos mortais, e, por outro lado, uma atitude de deleite de amor-próprio.
A respeito da intenção retórica do narrador e da prosa culta, percebe-se a necessidade de Brás Cubas em promover sua superioridade – conduta própria da classe dominante –, fato que é observado por Machado de maneira risível na obra. Essa sátira, através da prosa requintada do narrador-personagem-defunto, nos leva a afirmar que esse é um tipo social, enquanto símbolo da sociedade que ele próprio satiriza. No entanto, é preciso deixar claro que Brás Cubas é, sim, um modelo da classe burguesa, mas que transcende o tradicional tipo social da literatura, personagem reto e plano. Brás Cubas, com sua voz narrativa, discorre sobre temas filosóficos, sociológicos, religiosos, morais, existenciais etc., o que o torna um personagem extremamente complexo – mais um grande feito de Machado de Assis.
A história de Memórias póstumas de Brás Cubas se passa em meados do século XIX, e como tal, abrange a sociedade da época, a saber, uma sociedade escravocrata que tinha a pretensão de adaptar as teorias liberais europeias ao contexto brasileiro, o que era completamente inconciliável. Uma vez que as teorias liberais pregavam e preconizavam liberdade e oportunidades para todos, era contraditório em relação à escravidão vigente, estrutura política e econômica de muitos senhores da época. Machado, por meio da voz de Brás Cubas, em vários momentos no romance detecta essa contradição, camuflada por um discurso hipócrita e manipulador.
Contradições ainda existem, mesmo mais de um século após a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas. Esse contraste em relação ao que é dito ao que é feito, ao que existe de fato, ainda persiste na sociedade brasileira. O recorrente discurso democrático não condiz com uma sociedade em que a grande maioria não tem oportunidades e condições. Machado de Assis é atual, pois mais de cem anos atrás ele abordou temas que naquela época eram problemas da sociedade brasileira e até hoje perduram.


*** Sinvaldo Júnior é um personagem do livro de narrativas Manicômio, de Rogers Silva. Nasceu e vive em Uberlândia-MG. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Possui Mestrado em Teoria Literário (UFU) e Mestrado em Administração (UFU), com ênfase em organizações envolvidas em Artes & Cultura. Publicou artigos acadêmicos e jornalísticos em diversos sites, revistas e jornais. Atualmente é doutorando em Literatura pela UNESP. É pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond ***