Amigos do Rogers

25 de fevereiro de 2013

Meus olhos verdes (parte III)

Por Rogers Silva


* Os capítulos 4 a 8 do folhetim podem ser lidos AQUI


9 –

Sábado à noite. Aquela moça morena – os antigos cabelos crespos agora alisados, com um vestido preto que permitia a Geisel ver as formas antes não percebidas, um lindo sorriso (não um sorriso disfarçado ou forçado, mas um sorriso autêntico) e uma leve maquiagem no rosto, sandália de salto alto delineando suas pernas – aquela moça ali, em frente a sua casa (muito grande, aliás), esperava-o. E ao vê-lo, sorria mais. Agora, o rapaz saía do carro; fechou a porta e disse: “Nossa! Você está linda!” “Muito obrigada. Só não vou falar que eu sei senão seu elogio perde a graça. E pode me achar pretensiosa.” Geisel sorriu. Depois: “Você também está muito bonito – olhando fixamente os olhos dele. – Não vai abrir a porta para eu entrar? – mudou o rumo da conversa.” Passou por trás do automóvel e se direcionou para a porta do passageiro. Geisel ia atrás. Antes de chegar em frente à porta fechada, Jéssica parou. Falou, voltando o rosto para trás, ao moço: “Pode abrir.” Geisel, quase rindo, abriu. Jéssica entrou. Ele fechou-a o mais suavemente possível, e foi à outra porta, a do motorista. Do bairro Jardim Patrícia ao shopping eles foram conversando. Não ficaram em nenhum momento calados, sem assunto, sem graça. Falaram sobre música (Cássia Eller, Marisa Monte, Djavan) e cinema. “Adorei Titanic – disse Jéssica.” “É... ele é muito bem feito. Um filme histórico – retornou Geisel. – Também gosto muito de suspense. Adorei o... – e dizia o nome do filme. – Já assistiu?” “Nossa. Aquele filme é ótimo. Também gosto muito de suspense. Odeio terror.” “Eu também.” “Você está é querendo me agradar.” “Juro que não. A verdade é que gostamos quase das mesmas coisas. Os estilos de filmes são os mesmos. E daí vai... – Geisel, alternando entre Jéssica e a pista.” “É... muita coisa em comum... – finalizou ela, colocando sua mão em cima da mão direita do rapaz, cujas mãos estavam no volante.” No momento em que sentiu a mão fria de Jéssica em cima da sua, desviou a atenção da avenida para a moça. Olhou-a tão fixamente, as sobrancelhas arqueadas, que ela reagiu: “Olhe para frente, senão nem o filme vamos assistir.” O que ela quis dizer com nem o filme? – ficou pensando Geisel por um tempo.

10 –

Louco por você – o filme. Escolheram o filme Louco por você. Escolheram-no por ser o único romântico em cartaz. Geisel sugerira um de suspense, mas Jéssica: “Ah, vamos assistir esse outro – apontando o indicador para o cartaz da fita escolhida. – Vamos?... – aquele jeito cativante.” “Por mim, tudo bem. Pode ser qualquer um.” “Pode?” E puxou-o pelo braço para comprar o bilhete no Cinemais 6, no shopping. Louco por você – o filme. O rapaz se espantava com a naturalidade da moça. Após Jéssica pegar-lhe o braço, indo ambos comprar o bilhete, não o soltou até chegar às cadeiras do escuro do cinema. Passara do braço à mão fluentemente. Pelos seus olhos que brilhavam no escuro do cinema, Jéssica, às vezes olhando a tela, outras vezes virando o rosto para o rapaz, ora tirando a mão da mão dele, ora a colocando, parecia gostar do filme. Geisel fingia prestar atenção à história, mas a moça, fazendo-lhe às vezes carinho, tirava-lhe a atenção. Ele não retribuía o carinho recebido. Não a achara tão bonita no primeiro momento em que a vira na praça Tubal Vilela. No entanto, hoje, ele a achava a moça mais bonita da cidade – exagerava. – Ela está tão bonita. Sempre Geisel, nas relações, fora o primeiro a dar carinho, a dar conselho, a ajudar, a se sacrificar. Quando recebia a troca, recebia menos do que concedia – achava. Mas com Jéssica tudo parecia ir por um novo caminho. Não. Meu Deus, ainda não tive tempo pra concluir isso – pensou o rapaz.
   
11 –

Depois do filme, o embaraço da pouca intimidade não os deixou se aproximarem mais do que um simples prender de mãos e um abraço. Talvez isso se deu pelo fato de ter surgido uma pequena afinidade um pelo outro – sentimento este que ficava entre o pudor do desconhecimento e a vontade de estarem juntos. Foram embora sem ter se beijado. Por timidez, medo? Em pleno século XXI? Os olhos dela, durante todo o passeio, pediram o beijo, mas em hora alguma Geisel dera abertura. Houve um momento em que as bocas quase se encontraram quando, ao findar o filme (Muito bom – Jéssica exclamara ao terminá-lo), os dois foram à porta principal do shopping. Escoraram-se numa pilar redonda, um perto do outro, começaram a conversar, se aproximavam sem perceber: chegavam mais perto, mais perto. Quando parecera que o beijo sairia, Geisel (intencionalmente?) virara o rosto e a abraçara. “Que abraço mais gostoso – Jéssica falara.” “Humrum...” “Muito tempo não sentia um abraço tão gostoso.” Eles demoravam a se afastar. Ela o impedia. O moço achou a atitude de Jéssica extraordinária. Como uma pessoa pode agir tão naturalmente a tudo? – se perguntava.

12 –

A questão acima o instigava. Como? – se perguntava, agora deitado na cama, no som tocando Lady in red, olhando o teto escuro, pouca alumiação que vinha da janela aberta. A lembrança do rosto de Jéssica também o instigava: o pouco discernimento que tinha de sua fisionomia. Ele tentava, nessa mesma noite do passeio, fugir do sentimento que começava a se originar no meio do peito. Esfregava o peito tentando assustá-lo, expulsá-lo, fazê-lo sumir. Isso não pode ser. Faz tão pouco tempo. Tão pouco tempo! O jeito é dormir. Amanhã estarei melhor... Dormiu com o som ligado. Tocava Words.


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