Amigos do Rogers

28 de fevereiro de 2013

Meus olhos verdes (parte IV)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 9 a 12 do folhetim podem ser lidos AQUI

13 –

No dia seguinte, Geisel, vinte minutos após acordar, ouviu o trimmmm do telefone. Mas antes desligara o som, escovara os dentes, lavara o rosto e se preparava para tomar um copo de leite quando: Trimmmmmmm-trimm- “Alô – atendeu secamente.” “Ooooooi.” “Jóia? – mudou a nuança seca da voz.” “Sonhou comigo?” “Pra ser sincero, não.” “Mas que desleixo. Nem para sonhar comigo – exclamou meigamente.” “Não que eu não quisesse. Essas coisas não se escolhem.” “Escolhe, sim. Eu quis sonhar com você e sonhei.” “É? O que sonhou?” “Segredo.” “Ah, já com segredinhos?” “Claro que não, meu bem.” Meu bem? – pensou ele. “Se nós nos encontrarmos hoje, eu te falo o que sonhei” “Ah, chantagem?” “Mas é uma chantagem boa, não?” “Muito... – aos poucos se rendia.”
   
14 –

Chamara Jéssica para vir à sua casa. Dissera que a buscaria, se preciso fosse, na dela. Ela dissera que não, não precisava, seu pai a levaria. Geisel, por um momento, ficara ansioso – até se arrependera de tê-la chamado. Poderiam ter combinado de irem a outro lugar: num restaurante, num bar, até mesmo no shopping novamente. Que fosse! Mas aqui, nessa casa desarrumada e pequena?... Ela já deve estar a caminho... Agora, ele tentava pôr as coisas em ordem: colocava livros, mapas e atlas na pequena estante do quarto; guardava as roupas espalhadas por toda parte; punha cds e fitas de vídeo na estante da sala. Tomara que dê tudo certo. Mas tudo o quê? – se perguntava. Por que estou ansioso? Até parece que... – não completou. Enquanto passava parte da manhã de domingo organizando a bagunça, lá no vizinho ouviam-se pessoas discutindo sob um som de um pagode. Quarenta minutos após ter desligado o telefone, ouviu um bater de palmas em frente à sua casa. Foi atender. “Oi – ouviu, depois de abrir a porta e dar de frente a um portão baixo e pequeno, estragado e branco.” “Você?” “Qual o motivo do estranhamento?” “Não, nada – já abrindo o cadeado dourado que prendia o portão.” Ao lado, um portão maior, por onde passava seu carro. Eram onze horas quando a moça chegou. Ficaram até cinco horas da tarde conversando, ora olhando para a televisão, ora ouvindo música. Quando Geisel e Andressa (sua melhor amiga) se encontravam, esqueciam-se do tempo. Mas a moça percebia, às vezes, a desatenção do rapaz e perguntava se estava acontecendo alguma coisa. “Não, nada não. Tava matutando aqui...” Almoçaram, lancharam, ouviram música e riram juntos. Mas a distração de Geisel deixava Andressa encucada: o que será que tá acontecendo com ele?

15 –

Segunda-feira. Numa loja de roupas caras, no shopping, onde trabalhava, Geisel pensava na razão de Jéssica não ter ido à sua casa no dia anterior, conforme combinaram. Por que será? Teria acontecido alguma coisa? Pensara, na noite passada, após Andressa ir embora, em ligar para Jéssica, mas... Se ela disse que viria, não veio porque não quis – deduzia. E não telefonara. No entanto, hoje, segunda-feira, novamente mudara de opinião: Quando chegar em casa, eu ligo – formulou. Mas não teve tempo. Chegou às seis e dez, tomou banho, se arrumou e foi para a Universidade. Já dentro da sala de aula, perguntou à Marina sobre Jéssica. Mas nada que ela disse o animou. Marina, os dentes não muito brancos, foi bem seca e desinteressada ao falar sobre Jéssica. “Você conversou com ela ontem?” “De manhã.” “Ela te disse alguma coisa?” “Sobre o quê?” “Nada não, deixa pra lá... – optou em não aprofundar sobre o assunto.” Depois de estudar, ouvir as explicações dos professores, conversar com os colegas, desatento, Geisel foi embora antes mesmo do término da aula. À noite, após completar um trabalho de Psicologia da Educação, foi dormir. E dormiu.

16 –

Passou toda a semana enrolado com trabalhos, seminários, provas, emprego: enfim, dor de cabeça e pouco prazer. No sábado à noite, depois de muito se questionar se deveria ou não ligar para Jéssica, foi ao telefone, sentou numa cadeira, pensou por uns quinze segundos e não ligou. Antes de ele sair da cadeira, por coincidência o telefone tocou. “Geisel? – ouviu do outro lado da linha.” “Jóia? – reconheceu.” Era Marina. “Tudo bem. Deixa eu te falar. A Jéssica me ligou de Patos de Minas, parece que ela foi pra lá no domingo passado e parece que a vó dela tá doente e ela teve que ir pra lá. Ela me ligou e pediu pra eu te avisar. Não me explicou o porquê, só pediu. Parece que ela tentou te ligar umas três vezes, mas não conseguiu falar com você.” Aliviou-se um pouco. Mesmo Marina aproveitando a ligação e chamando-o para sair no dia seguinte e, com isso, ter chances de se divertir, começou a surgir um estranho sentimento em seu interior: saudade, se fosse, de quê? De quem? Geisel não aceitava a verdade. Mentiu que trabalharia: “Você sabe como é trabalhar em shopping, né? Deixa pra outro dia – completou.”

17 –

Na segunda-feira, decidiu sobre o que vinha lutando contra: deixar se envolver. Os pensamentos em Jéssica. Perguntava, principalmente à Marina, sobre a outra: vida, gostos, família e, indiretamente, sobre suas chances. Pela primeira vez se preocupava em ter chances. Até então nunca se preocupara. Acreditava que sempre as tinha. Marina, cabelos curtos e lisos, sempre o mesmo sorriso sem vida, constrangido, não o empolgava muito com suas declarações. Geisel deduzia: “Ela tá é com inveja.” Agora, o pensamento um pouco diferente do primeiro encontro no shopping, o rapaz dava vazão a ideias e sentimentos que antes o inquietavam. Sentia-se ansioso. Medroso. E ele, apesar do medo que o perturbava, gostava. Sentia-se novamente humano. Meu Deus, era isso o que me faltava? Me faltava Jéssica...


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