Amigos do Rogers

18 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte X)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 30 a 33 do folhetim podem ser lidos AQUI

34 –

“Liguei o Toca-cd. A canção. Aumentei ao máximo o volume. Que ninguém ouvisse o meu pranto. Mas
quem poderia ouvir o meu choro? Eu estava sozinho. Completamente só.
O telefone tocava.
Não escolhi o cd, apenas liguei o som e dei play. Qual teria sido a última música que eu ouvira ali, naquele quarto pequeno?
Eu estava desesperado, estava em pânico. Pode parecer exagero, mas eu nunca conhecera uma dor tão forte. Eu estava sofrendo. ‘Estava’ é piada. Estou... (Mas a canção ridícula que passa agora na rádio abranda a dor).
Naquele dia, a canção: Meu coração, sem direção...
Deitei na cama e desatei a chorar. Chorava alto, soluçava e fazia todos os tipos de perguntas que eu pudesse perguntar: Por quê? Por quê?! Por quê?!!
As estrelas vão me guiar...
E o telefone tocava.
Eu mordia o travesseiro. Assim diminuía o volume do meu choro. Que ninguém ouvisse. Mas a dor não diminuía com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. O travesseiro, em poucos minutos, estava molhado.
Não! Essa canção, não! Só no refrão percebi que a tal música que se executava no som foi exatamente a primeira que Jéssica me oferecera, um dia, numa dessas rádios. Dizia lembrar de mim todas as vezes que a ouvia.
E agora, se lembra de mim? Se lembra, Jéssica? Onde está o seu amor? Evaporou? Onde está aquele amor verdadeiro com o qual dizia que me amava? Me mostra. Eu quero vê-lo! Onde está?
Num beijo que jamais provei igual... Preferível fosse não ter provado. Um beijo de Judas. Um beijo que de tão doce se tornou amargo, como as lágrimas que eu provo sem querer agora – eu pensava, eu chorava.
O telefone tocando... Porra! Porra!
Se eu não te amasse... Agora não estaria chorando – murmurei, após ter tirado a música. Preciso de algo mais agressivo – pensei. Algo que me faça quebrar tudo que está em minha frente – exagerava por causa do sofrimento.
Odeio essa música! – gritei. Odeio você, Jéssica! Odeio esta dor que está no meu peito! Não. Não havia ódio em mim. Por incrível que pareça não havia ódio dentro de mim. Indignação, sim. Um enorme sentimento de injustiça. E constrangimento, vergonha. No meio de tantos cds espalhados pela pequena mesa, na qual ficava o aparelho de som, um me fazia lembrar de Jéssica. Um é piada, em tudo eu via Jéssica. Tudo que eu olhava me fazia relembrar aquela cena. Um cd que ela me dera. Um dos cds Love colection. Peguei-o, ainda chorando, um choro mais ameno, e de repente subiu um ódio tão grande que, quase sem perceber, joguei-o contra a parede. O resto do cd (a capa de plástico dentro da qual ele estava) espalhou-se pelo ar, caindo caindo ao chão.
Por quê? – após os porquês eu me derramava. Chorava, chorava, chorava...
E o telefone não mais tocava. Melhor assim.
Por que eu fiquei daquele jeito quando as flagrei, tão sem ação, tão sem palavras? Eu deveria ter dado uns murros na sua coleguinha, naquela cara lavada, cínica, que parecia achar o que faziam a coisa mais normal do mundo. Putas. Sem-vergonhas.
E Jéssica? Eu deveria ter gritado, falado tudo o que sentia! Entretanto, não consegui falar quase nada. Que cheiro é esse? Você está fedendo álcool! Você bebeu? Você está fedendo álcool com cigarro. Você fumou? Você está horrível, Jéssica! Por que me olha assim tão cinicamente?! O que faz agora não é nada normal. Não pense que vai sair assim, sem marca. Por que me olha assim? Por que me fala assim, tão duramente? Você está sendo injusta. Você foi muito injusta comigo, Jéssica. Muito... 
Por que me acusar de algo que você estava fazendo? ASSUMA SEU ERRO! Seja sincera, justa, verdadeira, e assuma seu erro! O que mais me doía, quando me lembrava do acontecido, era a expressão desavergonhada de Jéssica.
E aquela idiota que ficava ali nos rondando! Fala pra ela sair daqui senão vou matá-la – gritei.
Jéssica foi até Marina, encostou suas mãos nas mãos dela e disse-lhe alguma coisa. Eu ficava olhando aquela cena patética e dava-me uma vontade de ir lá e... Fazer algo que as machucasse, que as fizesse sentirem a dor que eu estava sentido. Humilhá-las, pensei em humilhá-las. Mas só pensei. Não tive, em momento algum, atitude para fazer qualquer coisa. Eu me encontrava estático. Nada disso está acontecendo comigo. É tudo um sonho. Isso! É tudo um sonho – eu pensava ali, enquanto Jéssica se justificava me acusando. Sim, ela tentava se explicar (Engano seu... – dizia) e me acusava (o culpado sempre acusa). E não era um sonho...”

O texto acima se encontra digitado em duas folhas A4 que, próximas a outras, jogadas de qualquer maneira em cima da mesa, numa sala pequena, na casa de um jovem, transmitem um aspecto de desorganização.

35 –

Quinze dias se passaram. “Foi uma maneira que ela usou pra superar a insegurança que sentia em relação a você – disse Andressa a Geisel.” Estavam na casa da moça, e Geisel em seu colo. Andressa fazia carinhos, passava as mãos no rosto dele. “Mas... – não completou. – Nesses últimos dias não houve um minuto sequer em que eu não pensei nela; aonde quer que eu ia, eu via seu rosto – nas paredes, na TV, nos rostos de outras moças, em tudo; um minuto em que eu não tentei achar reposta lógica de Jéssica ter feito isso. Não houve um dia sequer em que eu não sonhei com ela.” E acordava atordoado, pois Jéssica e Marina riam sarcasticamente dele. Ora acordava com falta de ar. Levantava, pois tinha medo de dormir e sonhar, e sonhar com ela. Sonambulava pela casa, ligava a televisão, e as mesmas porcarias de sempre. Deitava com medo, mas também com esperança de dormir rapidamente. Porém, os olhos ao teto, enxergava claramente a fisionomia de Jéssica, e ela ria, e ela chorava, dizendo (hipocritamente) que nada fizera. “É pior tentar achar reposta. Esse tipo de coisa não tem explicação...” “Eu acordo e durmo pensando nisso...” “É porque ainda está muito recente...” “Uma dor tão forte e tão constante... Tenho medo de... Um dia, de tanta raiva (acho que nunca senti tanto ódio na minha vida), eu dei um murro tão forte, mas tão forte na parede, que sangrei a mão.” “Pára, vai – tentou melhorar o ânimo do rapaz, abaixou o rosto e deu-lhe um beijo. – Me promete uma coisa?” “O quê?” “Que nunca mais vamos falar sobre. Esqueçamos. Bola pra frente.” Geisel sorriu (um sorriso amarelo) e disse: “Tudo bem. Prometo.... – mas interrompeu-se bruscamente. E completou – Tenho certeza, Dressa, não sei o por que, talvez uma intuição, mas isso não vai ficar assim.”



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