Amigos do Rogers

1 de março de 2013

Sobre o 'Manicômio', por Glenio Cabral (parte I)

"Caro Rogers,

seguem minhas opiniões sinceras sobre o seu livro. Não é preciso dizer que não sou um crítico literário. Na verdade sinto-me meio desconfortável nessa atividade, já que sou apenas um aspirante a escritor voltado para o público infanto-juvenil, e nesse caso estou muito mais pra uma versão nacional da J. K. Rowling do que para uma Saramago à brasileira, como é seu caso. Mas vamos ao que interessa.

Seu livro é denso, difícil, complicado. Exige muito do leitor. Por densidade e complicação não entenda ausência de conteúdo ou sequência desconexa de ideias. De forma alguma. Em todos os contos percebi claramente uma história ou “viagem” muito bem organizada, com início, meio e fim. A questão é que seu livro é totalmente visceral.  Tudo é muito intenso, sem subterfúgios, direto na ferida. Mas o direto na ferida é viajante, é submerso em devaneios, encharcado em loucuras. Confesso que não tenho o hábito de ler esse tipo de literatura.  Por isso, talvez, tenha sentido algumas dificuldades. Se eu estivesse numa livraria e me deparasse com seu livro, muito provavelmente não o compraria. Por quê? Porque acharia difícil pra mim. Falo como Glenio, como um leitor de coisas simples e algumas um pouco mais complicadas, que gosta de mergulhar fundo no mundo da literatura, mas que também aprecia objetividade e clareza. Falo como um leitor medíocre, que ainda tem muito a amadurecer. Enfim, seu livro faz jus ao título, é uma loucura literária. E como loucura, um grande desafio para o leitor médio. Cada vez que eu terminava um texto, me perguntava se de fato minhas impressões estavam corretas. Será que havia entendido mesmo? Era aquilo mesmo? Sabe, ler seu livro me deu a sensação de que as coisas não estavam em ordem em minha cabeça, de que havia muitas alternativas de compreensão, de que talvez o seu objetivo não fosse enjaular seus textos num espaço compacto de compreensão, mas deixá-los livres na mente alucinada de um ávido leitor. Seu livro me deixou alucinado. Completamente.  Deixou-me irritado também. Fiquei nervoso várias vezes, e a leitura de “Manicômios” quase me causa um conflito matrimonial. Por vezes encarei-o como um jogo, um jogo difícil de se ganhar. No conto O mundo desencantado de Desseres, por exemplo, eu quase pirei. Foi muita viagem. Sei que o que estava em questão era a angústia humana, essa permanente crise provocada pelas perdas na vida, pelas decepções e frustrações que os personagens vivenciaram. Suas reações são cotidianas. Raiva, desprezo, frustração, mágoa, esperança, desesperança... Mas admito que não consegui penetrar no conto como gostaria. Se a leitura dessa história fosse uma relação sexual, meu gozo não teria sido pleno, uma vez que seria dificultado pelas penosas tentativas de penetração. Foi um conto difícil de ser penetrado. Enfim, seu livro é um desafio. Mas qual grande literatura não é?

  • Uma viagem ruim: na minha opinião, o melhor conto do livro. Duas coisas me chamam atenção neste conto. Primeiro, o fato de ser de fácil compreensão. É um texto direto, objetivo, claro, fácil. Para um leitor mediano como eu, agradou bastante. E é o texto que abre a loucura que é seu livro. Achei legal isso, um estímulo pra que o leitor não se desespere logo de cara. Fico imaginando o que aconteceria se o primeiro texto fosse o do “Desseres...” Gostei muito deste primeiro conto, como já havia lhe adiantado. A maneira como o poema se manifesta comentando as frases que são compostas pelo Brad, a forma como ele analisa o Brad, as conclusões a que chega... O poema é concluído e... O final, arrebatador. Fantástico. Sinceramente, um dos melhores e mais criativos textos que já li. Não tenho nenhuma crítica a fazer. Parabéns!

  • Clarissa: Também de fácil compreensão. Insisto na tecla compreensão porque leitores medianos como eu adoram compreender claramente as coisas que estão lendo. É um defeito, eu sei. Mas, enfim, o vocabulário da criança é bastante convincente. Em todo o tempo tive a sensação de que meu sobrinho de cinco anos estava conversando comigo. Muito bacana a linguagem que você utilizou. Gostei também da forma como você abordou as descobertas da criança, a sexualidade, a admiração profunda pela amiga mais velha... coisas do dia-dia, palpáveis a qualquer um, vivenciadas por todos nós. Li o texto numa boa e gostei do que li. Esse foi fácil de ser penetrado. O final foi bem legal também.

  • Um voo entre as estrelas e o chão: bom texto. Senti uma enorme carga psicológica (o que é geral em todo o livro) neste conto. Senti-me na pele do cara, do conquistador, do incompleto, do insaciável. Foi um texto fácil de ser lido, apesar de ter sido um grande desafio também. As frases curtas não o tornam cansativo, apesar de ser um texto relativamente longo. Gostei da linguagem e das frases curtas. O final é um retorno ao começo, com a Josi em questão. Recurso legal também. Tive prazer em lê-lo.
  • Amor-perfeito: um texto difícil. Texto de frases imensas, povoado por palavras, por mil palavras, por um turbilhão de letras. Às vezes eu procurava loucamente por um ponto final, e nada. O tema me parece simples. O amor. Mas o amor é tratado aqui de forma visceral, intensa, metafórica e exagerada. Compreendi facilmente que havia um diálogo no texto. Um diálogo entre Lúci e Gabriel. Isso foi fácil de entender. A questão toda foi saber quem eram as duas pessoas.  Estamos tratando aqui de seres angelicais? Gabriel e Lúcifer? Ambos estavam tendo um caso celestial? Ou infernal? Ou são apenas pessoas com esses nomes? Fiquei com essa dúvida na cabeça. Mas confesso que a dúvida foi legal. Gostei de sentir isso, gostei mesmo. Acho que enriqueceu muito o texto".

[ Glenio Cabral ]


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