Amigos do Rogers

13 de janeiro de 2014

Carta para um ex-amigo



Desde que eu soube, assim meio sem querer, de que havia pulado sem asas de um prédio no Centro de Belo Horizonte, eu tenho pensado muito em você. Faz pouco tempo.

Me lembrei do exato momento em que nos conhecemos: naquele evento de estudante de Letras de todo o país quando, eu e dois amigos numa mesa, você chegou, se sentou e começou a confessar o inconfessável. Estávamos bêbados, estávamos felizes. Como me esquecer do maior porre da minha vida? Me lembrei dos momentos que passamos juntos: das exposições artísticas que inventamos no corredor da Letras; das Ideias Tortas; de quando nossa chapa ganhou para Diretório Acadêmico do curso; de todos os problemas resultantes disso; das (minhas primeiras) experiências alucinógenas ao som de Neil Young e The Doors; de tantas noites, tantas caminhadas, tantas cervejas, tantas filosofias baratas e caras; dos seus poemas (e mais especificamente do clássico “Estou cansado”, inédito e desconhecido, exceto pelos ratos e baratas que se escondem em suas gavetas). Ah, tenho me lembrado do quanto gostava de chamar a atenção: se estava bêbado ou sob efeito de drogas, isso se acentuava mais ainda. Do quanto tentava ser excêntrico. Conseguia? Já não faz sentido saber.

Vaidoso e ególatra como era, até em sua morte quis chamar a atenção: esqueceu as asas em casa, subiu num prédio alto, bem no centro de BH, em pleno dia, e se atirou. Mas o mundo não ouviu o seu grito. Poucos viram a sua queda. Sem tempo para o absurdo da morte, as pessoas passavam, fingiam perplexidade e voltavam às suas vidas lógicas. O mundo é cruel, meu amigo. Ele é indiferente aos sensíveis (como você). Pior: ele não perdoa os sensíveis à vida e insensíveis à sua lógica, à lógica da Máquina. Viver num mundo sem sentido é uma atitude heróica, meu amigo, sobretudo quando se tem consciência dessa falta de sentido. Você tinha. Ou talvez o suicídio seja um ato de liberdade de alguém que sabe que vivemos para a morte e, por isso, escolhe a sua hora, a hora dela. Não se matar, apesar de todos os motivos que gritam, é uma atitude heróica. Meu caro amigo, a náusea, quando vem, ela precisa ser substituída à força pelas pequenezas da vida. É uma estratégia para não enlouquecer. Viver em estado de náusea é sentir que suas tripas estão prestes a sair, mas nunca saem. Você cometeu um erro estratégico, como dizem aqueles que acham que a vida se resume a sim ou não, como uma fórmula matemática primária.

Os suicidas se entendem. É certo que nem todos os suicidas se matam. Alguns, poucos segundos antes do ato, percebem que alguns segundos após o ato a vida pode se transformar em deslumbramento. E por isso decidem suportar, ansiosos, esperando algo que não se pode explicar. Eu tenho suportado. Eu desisti algumas vezes antes do ato, antes da consumação. Fico me perguntando: por que não desistiu também? Se eu pudesse te dar algumas dicas para evitar o suicídio, meu amigo, eu te diria: evite cigarros; evite alguns tipos de drogas; evite os poetas; evite os filósofos; evite madrugadas; evite os existencialistas; evite os depressivos em geral; evite a falta de vontade de ter filhos; evite gorduras; evite a vida. Evite, sobretudo, o Nada, responsável pela angústia de toda essa geração que tem tudo mas não tem nada.

Você queria montar uma banda, mas não sabia tocar. Você queria ser escritor, mas não publicava. Você se achava um gênio, mas nunca mostrou ao mundo os frutos da sua genialidade. Você queria viver intensamente, e acabou se sufocando com a rotina da (sua) vida. Outro erro estratégico, meu amigo. Este mundo que não te quis, e vice-versa, aceita apenas os práticos, os que agem, os que fazem, apesar dos fazeres tortos. Aja sempre, mesmo que para caminhar sem rumo, para mover os ossos, as pálpebras, os pêlos. É o que posso te falar quando já não pode me ouvir.

Não terminarei esta carta com “Um dia nos encontraremos”. Não. É bem provável que nunca mais nos encontremos. Também não direi que “Deus te receba”. Deus tem raiva (e talvez inveja) da coragem e da covardia dos suicidas. Se Deus for esse Deus no qual não acreditávamos, Ele não o receberá. Uma pena. Porque se Ele o recebesse, Ele aprenderia a dançar ao som de Iggy Pop.


Adeus.


*** Gostou? Compartilha no Facebook?