Amigos do Rogers

14 de abril de 2011

Manicômio (4º episódio)

Por Rogers Silva


Assista ao 3º episódio de Manicômio AQUI.


(Rafael em direção à Universidade)
---- Depois de pronunciar mentalmente, pelo caminho, algumas palavras em francês (folie, brésilien, être, est) avulsas, sem juntá-las num texto conexo, Rafael chegava ao portão de cima da Universidade. Ia excitado. Seus pensamentos se resumiam a vinho, maconha, música e, quem sabe, uma gatinha. Uma daquelas hippies bonitinhas dos cursos de Filosofia, Ciências Sociais, Artes Plásticas, História. Beleza!

(João Marcos em direção à sua casa)
---- Preferiu descer pelo bairro Santa Maria, atravessar a Av. Rondon Pacheco, e subir no rumo do Terminal Central (ponto central de encontro das várias linhas de ônibus da cidade). Em cima da moto, o vento frio batendo em seu rosto pelo capacete aberto, João Marcos ia pensando em alguma estupidez. Pensava em como as pessoas o achavam cretino se era apenas verdadeiro. A verdade dói? Dói – concluía. Pensava no sonho que Joana (colega de sala) lhe contara no começo da aula. Dissera que o via mudado, bondoso, mais agradável. Até essas costeletas de Elvis Presley você tinha tirado – gracejara. No sonho, via-o diferente, praticando a bondade que lá no fundo, bem no fundo, o rapaz possuía. Deixando de falar as coisas que tanto magoavam as pessoas... Foda-se!

(Os inseparáveis se separando)
(“O retardado”)
---- Farrepa, dois minutos depois, já se encontrava em casa, arrumando-se para se deitar. Por que às vezes as pessoas diziam que era retardado mental? E por que os amigos (Luís, Bigode e até Manel) nunca tocavam no assunto? Como assim, retardado? Achava-se tão normal. O melhor é dormir do que procurar respostas...

(“O inválido”)
---- Bigode ia mancando para casa. Chegar lá, minha mãe de-de-deve estar dormindo. In-in-inda bem. Ta-ta-tadinha dela. Se preocu-cu-cupa tanto comi-mi-migo. Ia andando, mancando, e pensando. Apesar de tudo, se achava feliz. Tinha amigos e mãe que se preocupavam com ele. Por que se sentiria infeliz? É, não tenho mo-mo-motivos para me sentir tri-tris-te-te.

(“O empolgadinho”)
---- Luís, bigodes e cabelos grisalhos movidos pelo vento que entrava importunamente por entre o vidro aberto, ia, em seu carrinho (seu Fuscão, como falava), pensando em coisas diversas (Chegando em casa, veria se sua filha Camila já tinha chegado da universidade. Talvez já estivesse dormindo – pensava). Dava atenção a tudo: às casas pequenas, sujas, do bairro pobre em que morava, às árvores maltratadas da beira da rua, às pouquíssimas pessoas (morenas encardidas, negras) que via andando pela rua, ao (talvez) único bar que estava aberto àquela hora. Só não prestava atenção à música que, apesar da péssima transmissão, passava na rádio AM:

“Vocês são vermes, pensam que são reis”
.
(“Além de preto, o do contra”)
---- A rua por onde Manel passava agora estava mal iluminada, e assim se via a despreocupação dos políticos por essa parte da cidade, a banda pobre, podre – diante da realidade Manel concluía, ao perceber os estragos do bairro no qual morava e de cuja estrutura usufruía para cuidar dos dois filhos e da mulher. Sonhava em ver os dois filhos dentro de uma universidade. Ele achava que ser universitário era bonito. Na sua camisa ainda continuava escrito, em letras maiúsculas: Preto sem preconceito.

RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA SILVEIRA
---- __ E aí, seus bregas – João Marcos, ao chegar em casa, falou à família. – Ainda bem que acabou aquela bosta de Big Brother. Programa mais chato. E o bom é que vocês pensam que são vocês mesmos que escolhem quem sai ou fica. Eles deixam e tiram quem eles quiserem, sô.
---- __ Ah, larga de ser chato, Marcos – falou sua irmã Bety.
---- __ Cada um assiste o que quer – completou sua mãe (Maria).
---- __ Por que esse pessoal coloca essa votação obscura, hein? Por que eles não colocam a votação igual a da Casa dos Artistas, hein? A Globo é cheia dessas obscuridades – e o efeito de suas palavras era nulo. A família continuaria a assistir aos programas. Ao contrário, o efeito era adverso: aumentava o afastamento de sua família com relação a ele.
---- Foi para o quarto, guardou seus materiais, ficou uns dez minutos pensando e voltou com intenção de sair.
---- __ Onde você vai, menino, esse horário? – perguntou sua mãe, a única que ainda estava na sala. Os outros já estavam nos quartos se aprontando para dormir.
---- __ Vou ver se acho um lugar aberto pra comprar um refri. Rapidinho...
---- __ Esse horário? Não demora não.
---- __ Tá bom. Rapidinho... – abriu a porta, o portão e se foi.

CASA DE BIGODE (Sua mãe, D. Maria, agora deitada)
---- Numas horas dessas e essa mulherzinha ouvindo essas música de morto.
.
.
* Confira o episódio final da minissérie Manicômio no dia 29 de abril.
** Do livro Manicômio, ainda inédito.
*** Publicado anteriormente no site O BULE.