Amigos do Rogers

6 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte VI)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 18 e 19 do folhetim podem ser lidos AQUI

20 –

Vários telefonemas. Mais alguns encontros. A paixão e a intimidade crescendo entre eles. O conhecimento – por parte de Geisel – da família (pai, mãe e irmã) de Jéssica. Presentes (ele dera a Jéssica um quadro, bombons, anéis, correntes e pulseiras e, por incrível que pareça, numa atitude inédita, até flores. A jovem dera bem menos para Geisel: uma bonita camisa e uma coleção de CDs com músicas românticas). Eis o que se passara, resumidamente, nos primeiros três meses. Os pais da moça aparentaram gostar do rapaz: inteligente, bonito, bem-educado, maduro – como Jéssica dissera a ele próprio, usando as palavras deles. Geisel dava-se bem com a irmã de Jéssica, uma adolescente de 12 anos. Às vezes reclamava, brincando: ele dava mais atenção à sua irmã que a ela, sua namorada, ora!

21 –

Resumindo, a Perfeição em três meses. Mas em ficção (ficção?) não há aberturas para resumos, e sim verossimilhança acima de tudo. Em meio semestre, o desejo de se verem, de se falarem, de se abraçarem, de se beijarem, aumentou a cada dia que passou. Não houve um dia sequer que eles não se falaram. O telefone os ajudou quando não foi possível o encontro. A moça era mais arrojada e demonstrava estar mais apaixonada. Exatamente três meses depois do primeiro beijo do casal, num sábado de manhã, Jéssica ligou para Geisel, dizendo que desejava passar o dia todo com ele, a fim de namorarem e fazerem tudo. “Por mim, tudo bem. Hoje eu estou de folga mesmo.” Já de manhã, às dez e meia, foram para uma praça localizada no centro da cidade. Os dois: sentados num banco; abraçados; os rostos virados um para o outro; os olhos apaixonados, dizendo: Eu te amo eu te amo, simultaneamente; as mãos entrelaçadas se acariciavam. “É tão bom estar aqui assim com você. Saiba que nesse tempo que estivemos juntos não houve um momento sequer que não quisesse estar perto de você – dizia Jéssica.” “A melhor coisa no meio de trabalho, faculdade, falsos amigos – excluindo Andressa, é claro (Jéssica soltou um Ah! de ciúme e aparente desaprovação) –, é estar com você.” “Por que você sempre tem que falar na Andressa, hein? – disse, revelando a falta de afinidade pela outra, já demonstrada desde que elas se conheceram há dois meses atrás na casa de Geisel.” “Pára com isso, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Pára, vai, me dá um beijo – e puxou a moça brandamente pelo pescoço.” Jéssica não resistiu e o beijou, mas não deixou de demonstrar o descontentamento perante a pronúncia do nome de Andressa. Pareceu preferir esquecer o assunto. Geisel deitou no colo de Jéssica, dobrando as pernas em cima do banco. Os olhos de Geisel, sob os raios do sol forte, expunham uma beleza incrível, dizia a namorada, que fazia carinhos, alternando entre os cabelos, o pescoço, o peito e os braços dele. Freqüentemente ela exclamava, os olhos direcionados aos outros: “Meus olhos verdes...” A princípio, na primeira vez em que ela dissera isso, ele não entendera. Mas ela, antes do rapaz perguntar “Como?”, completara: “Só meus – e repetira: – Meus olhos verdes.” Hoje Jéssica insistia em repetir: “Seus olhos são tão lindos. Seus, não. Meus... Meus olhos verdes...”

22 –

A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara em passar o dia todinho juntos, ao ar livre, estava fria. No som, a música-clímax da paixão: Total eclipse of the heart. Geisel fizera questão de colocá-la num momento tão especial. Geisel, ao colocar primeiramente essa música, e depois programar, no aparelho de som, a repetição dela meia hora depois, pensava com isso começar beijar-lhe o corpo, acariciar-lhe o corpo, no instante da execução (repetição) de Total eclipse of the heart. O rapaz fizera questão de escolher dois da coleção de cds que Jéssica lhe dera dos cinco que introduzira no aparelho. Primeiro, o modesto mas bem preparado jantar – uma leve refeição feita por ele. Jantavam, conversavam, ouviam-se com prazer. O pensamento dos namorados, onde estaria? Na cama, no corpo alheio, no beijo alheio, ou no corpo e prazer próprios? Geisel pensava em dar e receber prazer. E Jéssica? Ao abrigo de Because you loved me (Celine Dion), os dois foram se beijando para o quarto. Lá, caíram-se na cama de casal. Nenhum pudor, nenhuma tradição, nada parecia atrapalhá-los. Já no quarto, e agora (quão minúcia!) Total eclipse of the heart novamente, Geisel se encarregava de beijar-lhe o rosto, o pescoço e, após tirar-lhe (caía, poética e pateticamente) o vestido de seda dourado, beijava-lhe os lindos seios, a barriga, as pernas e as demais coisas. Com suavidade e experiência Geisel virava a namorada a fim de também lhe beijar o pescoço, a nuca, as costas, a bunda. Aproveitava o momento e deslizava, com vigor, sua língua sobre todo o corpo de Jéssica. A música parecia aumentar a excitação e o prazer dela, embora ainda não tivessem ultrapassado as carícias e os beijos. A luz acesa, a cama, o quarto – e tudo que nele havia parecia submergir ante o ato do amor. Somente o espelho – um grande espelho, obra rica e majestosa – sobressaía. Encontrava-se a uma certa distância, no meio da região lateral da cama de casal. Um antigo objeto, obra do século XVIII ou XIX, muito desgastado, no qual se viam uns delfins modelados nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola (substância nacarada da concha dos moluscos) e outros caprichos do artífice feitor. Pelo reflexo, ora Jéssica via o corpo nu de Geisel, ora ele via o corpo despido dela. Depois, já deitados na cama, também pelo espelho às vezes Geisel reparava no ato sexual, seu corpo invadindo o corpo da outra. Gostava dessa primeira vez em que era invadida. Ao gozar não sabia se ria ou chorava. Sentiu algo tão estranho e tão inexplicável em suas entranhas, que chorou. Lá fora, apenas uma noite fria.



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