Amigos do Rogers

29 de março de 2011

Manicômio (3º episódio)

Por Rogers Silva
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AVENIDA SEGISMUNDO PEREIRA
---- Rafael ia descendo pela avenida, observando as poucas casas, os vários pontos de comércio, os terrenos vazios, às vezes olhando os automóveis que desciam como ele, e os que subiam, indo-lhe em oposição. Estava excitado, com imensa vontade de beber um vinhozinho, cantar (cantar não, só ouvir, pois era péssimo cantando) uns rock’s, de preferência nacional (Legião Urbana, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Titãs) – se divertir!

UNIVERSIDADE (ENTRE O BLOCO DE LETRAS E FILOSOFIA)
---- Após ficar um pouco no luau, ouvindo algumas músicas que já estava cansado de ouvir, João Marcos decidiu ir embora.
---- __ Já vai, cara?
---- __ Larga de ser prego.
---- __ Tá cedo.
---- __ Dá mais uma pitada aí.
---- Escutou, de quase todos, cada um à sua maneira, para não ir. Que ficasse mais um pouquinho. Quando João Marcos saía, um mulato com cabelo black power cantava uma música que não ouvira nos luais anteriores:

“Quero explodir as grades e voar
Eu não tenho pra onde ir, mas não quero ficar...”
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---- Ele é feio pra caramba, mas canta até bem, pensou João Marcos, antes de virar atrás de um bloco, desaparecendo para o pessoal que ficava.
---- Pegou sua moto, ligou-a e foi embora. Mas não antes de levar um tremendo susto. Um Chevette rebaixado, cor prateada, modelo 89, quase bateu na sua moto, ali dentro mesmo do campus. João Marcos gritou, esbravejando algumas reclamações e xingamentos. O outro, o do carro, fingiu não ouvi-lo nem gritou ou falou nada. Também, com essa escuridão aqui dentro da universidade – concluiu João Marcos.

BAR DO ZÉ
---- Os amigos ficaram mais uns trinta minutos conversando sobre assuntos diversos, importantes para todos eles. Futebol (esporte em geral), as eleições de outubro (Manel disse que votaria no Lula. Luís ainda estava indeciso. Farrepa não votava. E Bigode: E-e-eu vou votar e-e-em branco), mulheres e outras coisas foram comentadas na roda dos companheiros inseparáveis.
---- Depois, findo o programa rotineiro, eles se preparavam para ir para casa, cada um para a sua. Farrepa morava na mesma rua do bar. Bigode iria a pé: sua residência ficava a apenas três quarteirões. Luís fora ao bar com seu Fusca branco (e retornaria com ele), pois a sua ficava longe, do outro lado do bairro Morumbi. E Manel (Ah, Manel!) também iria a pé – chegaria, caminhando, aproximadamente em oito minutos. Luís falou que levaria todos de carro. Bigode respondera que a sua casa ficava pertinho. Manel preferira caminhar: Tô precisano de andar um pouquinho – dissera.

RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA SILVEIRA
---- Num sofá (três lugares) bonito, cor vinho, estavam Alfredo e Juninho, um pré-adolescente de doze anos. No outro, menor (dois lugares), estavam Maria e a filha Bety. Encontravam-se animados diante da perspectiva de poderem (que inocência!) escolher o destino das pessoas (jogadores do programa Big Brother Brasil 2). Que inocência! – como diria João Marcos, se estivesse na casa.
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CASA DE BIGODE
---- Num vou esperar ele, não. Eu vou é pra cama. O poblema é esse barulho de mulher tendo um orgasmo, além do Frank Sinatra. Hoje parece que eles descansaram, os vizinhos. Aquelazinha. A Vera e seu enrolado. Assim que ela diz. Enrolado... Por que não fala marido ou namorado? Mas não... Enrolado.
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* Continua no dia 14 de abril.
** Do livro Manicômio, ainda inédito.
*** Publicado anteriormente no site O BULE.