Amigos do Rogers

27 de fevereiro de 2014

Sobre Machado de Assis

Viajei há tempos atrás, a convite de Rossana Spacek, para Itumbiara-GO, juntamente com o Domingão, pra conversar sobre Machado de Assis e, especificamente, Dom Casmurro, com alunos de ensino médio. Uma experiência incrível! Embora fizesse muito tempo que não lia/relia Machado, tudo que li dos 19 ao 21 anos (quase toda sua obra ficcional) me veio à memória assim num salto. A tensão sumiu quando comecei a falar sobre nosso velho Machadão.


Espero não ter chocado alguns alunos e professores ao falar:

1) Se disserem que Machado de Assis é o maior escritor da literatura brasileira, não acredite. Explico: há, a meu ver, pelo menos dois autores da mesma envergadura de Machado, que são Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Esses três, na minha opinião, estão no mesmo patamar de qualquer monumento da literatura estrangeira. E literatura não é Fórmula 1, Futebol, esportes em geral, pra ficarmos comparando quem é o melhor, o maior etc. Ademais, a literatura brasileira é saturada de grandes escritores, e ficar focando em Machado chega a ser um desserviço à leitura, já que temos Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Fernando Sabino, Érico Veríssimo, Lygia Fagundes Telles, Manoel de Barros, Murilo Mendes, Ariano Assuassua etc. etc. etc. (complete...)

2) Se disserem que Machado de Assis é de uma leitura difícil, também não acredite. Dom Casmurro é de fácil leitura; a linguagem de Machado é clara e límpida. O que pode parecer difícil em nosso autor é alguns termos/palavras/contextos que eram característicos daquela época, a saber, final do século XIX. Outra coisa que pode dificultar a leitura de Machado é o tanto de referências (a personagens históricos, outras obras e autores de literatura, de filosofia, de religião etc.) que ele faz em suas obras.

3) Se disserem que Capitu não traiu Bentinho, não acredite. Quem inventou a inocência de Capitu provavelmente foi uma mulher, e feminista. Há indícios (e não provas) claros que de houve, sim, traição, mas nunca nós - leitores - saberemos disso.

4) Bentinho não é tão bobão, babaca, burro quanto tentam pintar. Bentinho é astuto e consegue convencer 90% dos leitores que, numa primeira leitura, se deparam com sua história de vida e que, de fato, acreditam que Capitu o traiu.

5) Dom Casmurro não é um romance sobre uma possível traição e adultério por parte de Capitu. Isso foi a crítica que inventou. Dom Casmurro é uma história de um amor adolescente. Mais de 2/3 (ou seja, de 300, umas 210 páginas) se concentra na época em que os personagens eram adolescentes/jovens.

Falei mais coisas, mas essa a síntese.