Quando a literatura se olha no espelho: participe do II Enpel e do minicurso sobre metaficção

  

A literatura nunca foi um repositório passivo de histórias. A literatura é um território de disputa, um campo de resistência e, fundamentalmente, um exercício de alteridade. No contexto contemporâneo, discutir a produção textual é um imperativo para a manutenção da saúde democrática. É sob essa premissa — “Letras e promoção da democracia: narrativas, discursos e resistências” — que o II Encontro Nacional de Pesquisadores em Letras (II Enpel) e a Semana de Letras do IFTM Campus Patrocínio abrem suas portas. 

O evento ocorrerá entre 21 e 23 de outubro de 2026, em formato híbrido: presencialmente no Campus Patrocínio e com transmissões globais via YouTube. 

O minicurso de Rogers Silva 

Dentre as atividades, destacamos o minicurso “A metaficção na literatura: o texto autoconsciente”, que será conduzido pelo nosso colunista Rogers Silva (UFU) no dia 23 de outubro de 2026, às 16:00, no Campus Patrocínio. 

Rogers Silva transita entre a criação e a exegese: é escritor, pesquisador, roteirista e cofundador da Revista O Bule. Com doutorado em Estudos Literários e pós-doutorado em Literatura e Cinema, sua produção inclui as obras Manicômio (2012) e Ensaios sobre a total libertação (2025), além do curta-metragem Estátuas sobre túmulos (2026). Sua presença garante um debate que une o “fazer” literário ao pensamento crítico acadêmico. 

O que é metaficção? 

Imagine entrar em uma “casa de espelhos”. A diversão reside em aceitar a ilusão, mas a metaficção é o arquiteto que acende as luzes, aponta para as engrenagens e diz: “Veja como eu construí este truque”. Longe de ser um pedantismo técnico, a metaficção é um imperativo de honestidade. Ela rompe com a mentira do realismo tradicional para revelar que a linguagem não é uma janela transparente, mas uma estrutura mediada. 

O minicurso abordará as seguintes questões:

  • A ficção que se reconhece como artefato sistemático, questionando a ontologia da obra.
  • O colapso deliberado entre o mundo ficcional e o real, transformando o leitor em cocriador de sentido.
  • A exposição das entranhas narrativas, como a metalepse. 

Para conferir autoridade a essa jornada, o autor revisitará a “página preta” de Laurence Sterne em Tristram Shandy — um luto visual pela morte de um personagem que desafia a linearidade — e percorreremos os labirintos de Machado de Assis, Pirandello e Borges. 

Estudo de Caso: o livro Ensaios sobre a total libertação 

O curso utilizará a obra mais recente do próprio Rogers Silva como laboratório prático. O livro exemplifica como a metaficção pode ser, ao mesmo tempo, um jogo intelectual e uma ferramenta de urgência ética: 

1.   O autor como protagonista: No conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, o autor real se torna vítima de um stalker, borrando as fronteiras entre a identidade pública e a vulnerabilidade ficcional.

2.    Mise-en-abyme e colapso de níveis: Em “Drummond no Orkut”, o personagem João encontra o livro real Manicômio (publicado por Rogers em 2012), fazendo com que a ficção “engula” a bibliografia verídica do criador.

3.  A metaficção historiográfica e o trauma: No conto “A máquina-führer”, os personagens Curioso-menor e Curioso-Maior viajam no tempo para impedir que o autor seja responsabilizado pela criação do personagem Klaus Hoffman. O objetivo é evitar o suicídio do criador aos 30 anos, discutindo se um autor deve carregar o peso moral das tragédias que sua obra evoca. 

Por que participar? 

A metaficção nos ensina a desconfiar de discursos absolutos e a ler a própria vida como um “texto editável”. A metaficção exige que o leitor deixe a passividade de quem consome ilusões para assumir a postura crítica de quem compreende a engenharia das narrativas que moldam o mundo. 

Informações úteis & inscrições 

Garanta seu lugar neste diálogo essencial sobre a literatura contemporânea e a resistência democrática.

Esperamos por você no II Enpel!

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