Amigos do Rogers

28 de fevereiro de 2011

Manicômio (1º episódio)

Para Rinalddi, assassinado, e Jéferson, suicida (In memoriam)


CASA DE RAFAEL
---- __ Fou – falava a si mesmo, pelo espelho, e repetia: – Você é fou. Fou... Se preferir, folle. Que tal? Folle... É isso que você é: folle. Vous êtes fou.
---- É. Parece que melhorei a pronúncia, saiu do banheiro pensando. A professora disse para eu treinar bastante. É... Estou aqui, treinando.
---- __ Homosexualité. Têeee... Têeee... Iuuuuuu... Uuuuu... – saiu gritando (Iuuuuu... Uuuuu...) e pulando pela casa repetindo – Homosexualité. Eu sou homosexuel! E negro! Un homosexuel nègre! Que bosta! Um homosexuel negro – continuou. Não sabia o porquê, mas estava feliz. Às vezes tinha dessas súbitas empolgações.
---- Por que estou falando isso? Um homossexual negro... Eu não sou viado! Negro, sim. Mas viado, não!, pensava, agora estranhando sua atitude. Ainda bem que tô sozinho aqui em casa. Mas se tivesse alguém por perto eu não faria isso. Ou faria?... Xispa. Às vezes nem eu mesmo me conheço...

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (BLOCO DE LETRAS)
---- __ Por que aquele negão vagabundo não veio à aula? – perguntou João Marcos à Camila.
---- __ Sei lá...
---- __ Aquele pagodeiro!
---- __ Ele não é pagodeiro não, é?
---- __ Deve ser. É preto. Quase todos pretos são pagodeiros.
---- __ Que preconceito, hein João Marcos!
---- __ Mas preto no Brasil que faz sucesso. Ele tem sorte de ser preto.
---- __ Às vezes você é tão ridículo. Tão nojento.
---- __ Nojento, não! Verdadeiro. Pelo menos não fico falando por aí que negro não sofre discriminação. Pode ver pelas novelas. Nas novelas, negro é só empregado. Quando muito, governante. Da casa, é claro. Em muitas outras coisas dá pra se ver.
---- Enquanto o jovem de vinte anos falava, Camila, gorda, bochechas igualmente gordas, óculos redondos repousados sobre o nariz, baixa, morena, ouvia-o transtornada. Vai ter gente idiota assim lá longe – refletiu.
---- __ Tá na hora. Já são oito e cinqüenta. Vou pra sala. Você não vai, não?
---- __ Não tô afim de assistir aula daquela chata da Bernadette, não. Ainda mais literatura. Matéria mais chata!
---- __ Tá bom. Tô indo – Camila se foi pelo corredor do bloco, olhando as portas de todas as salas, procurando a sua. – Esse negócio de não definir em que sala vamos ficar não dá certo.

BAR DO ZÉ
---- __ Ou, Zé! Mais uma loirinha aqui pra nós! E gelada! Se não tiver gelada eu não pago – gritou Luís, homem de aproximadamente cinqüenta anos, cabelos e bigode grisalhos, vestindo uma camiseta cavada e uma calça jeans desbotada.
---- Luís tinha como rotina ir quase todos os dias ao bar do Zé, tomar, com os amigos (sempre os mesmos: Bigode, Farrepa e Manel), sua cervejinha. É lógico que essa “sua cervejinha” não se resume a uma só.
---- Adivinhe qual o assunto do dia, na mesa dos amigos inseparáveis? Julgo eu que pensou em, em, em?... Futebol, é claro!
---- __ Num sei o quê aquele bosta do Ronaldinho tá fazeno na seleção. O cara fica mais de dois anos sem jogá bola e entra assim, de boa. Só no Brasil mesmo! – exclamou Manel, “o do contra”, apelido dado pelos amigos. Sempre discordava da opinião dos outros. Sempre discordava da opinião da massa. Manel, boné com propaganda de cerveja na cabeça, camiseta preta com os escritos, em branco, “PRETO SEM PRECONCEITO”, bermuda jeans, completou: Tem treta nisso. Lembre-se que a Nike que patrocina a seleção brasileira, viu?
---- __ Deixa de coisas, sô – interrompeu Farrepa, um homem de uns 30 anos, retardado mentalmente, mas pouco perceptível esse retardamento. – Ronaldinho joga inté bem.
---- __ Ah, ele não joga lá essas coisa, não! – entrou Luís, que até então ficara pensando na filha que, há dois meses, em março de 2002, conseguira passar no vestibular e ingressar numa universidade pública. – O Romário é bem melhor que qualquer um ali e não foi pra Copa.
---- __ Sabe o que é, gente? – tentou Manel – O cara fez propagana pra Coca-Cola e quem patrocina a seleção brasileira é a Guaraná Antártica...
---- __ Ih, lá vem o Manel com essas doidice dele – disse Farrepa, olhando desdenhosamente para os outros dois. Uma mistura de desdém, ingenuidade e ironia. – Tem nada a vê não.
---- __ Mais uma, Zé! – gritou Luís, o responsável pelos pedidos.
---- Zé veio lá de dentro e colocou a cerveja aberta na mesa, dentro do isopor. A mesa ficava do lado de fora, na calçada, encostada à parede. O bar do Zé, ponto de encontro do bairro, ficava na esquina.
---- __ Essa tá boa – murmurou empolgado Bigode, meio gordo e baixo, que até então estivera calado. Usava uma camiseta do Flamengo de 1996. Pegou a cerveja e encheu o seu copo, antes de encher os dos outros. Depois de todos cheios, começou a beber. Deu dois grandes goles e disse: Aquele De-De-Denílson que jo-joga pra caramba, né?
---- __ Denílson joga inté bem. Finta bem – falou Farrepa, sem empolgação, dando um gole – Sô, e Ronaldinho Gaúcho? – Depois de um tempo: – Joga bem também.
---- __ Esse cara num joga nada. A televisão que fica puxano o saco dele. Num faz merda nenhuma na seleção – Manel, a pele escura reluzindo no meio-escuro da rua, disse. – Aquele chato do Galvão Bueno que fica puxano o saco dele. O Ronaldinho Gaúcho deve pagar ele pra ficar puxano seu saco...
---- __ Que foi que o Bigode tá meio calado hoje, gente? Será que tá apaixonado? Até raspou o bigode, olha – Luís, desviando do assunto anterior, comenta a mudança e o silêncio de Bigode. Que nunca se casara. A última namorada que tivera fazia aproximadamente 15 anos, quando ele tinha 34 anos. – Vi-vi-vivo bem assim – disfarçava ele aos amigos, quando falavam sobre. Bigode morava com a mãe, uma velha de 75 anos. – Mais uma, Zé! – gritou Luís, antes de recomeçar o assunto “Bigode”.

RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA SILVEIRA
---- Em casa, situada no bairro Roosevelt, a família Silveira, exceto João Marcos, esperava (todos na sala) o programa Big Brother Brasil 2 começar. Alfredo (pai), Maria (mãe), Bety (15 anos) e o caçula Juninho esperavam ansiosamente o Big Brother Brasil 2 iniciar.

CASA DE BIGODE (Apenas sua mãe em casa)
---- Além do escasso barulho da agulha no crochê e, às vezes, o da agulha caindo no chão, há o barulho de Frank Sinatra na vizinha ao lado, que sempre faz questão de ouvir isso só para parecer chique. Tem mania de parecer chique. Se ela soubesse o quanto é ridiculazinha com essa sua mania de chiquesa, luxo. Isso que dá em morar no mesmo terreno com outro. Se o meu Fabriciano, que lindo nome!, Fabriciano... se ele desse um jeito em sua vida, mas... fica quase o dia inteiro bebendo com seus amigos. Nem sei se pode chamar aquilo de amigos. Um bando de vagabundos. Tirando o Luís que até que é um pouquinho sério, o resto é tudo vagabundo.
---- Só essa miséria de aposentadoria. Inda bem que já tô quase morrendo. Senão... A minha aposentadoria e o dinheirinho que Fabriciano recebe por invalidez... Inda bem que o pai dele deixou essas casas pra nós. Pelo menos isso! Mas juntando essa casa e a do fundo, a que mora essa chata da Vera com a sua mania de luxo – pobre luxuosa, nunca vi isso –, juntando as duas num dá nem pra comprar uma melhorzinha num bairro melhor. Esse bairro aqui é muito perigoso.
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** Do livro Manicômio, ainda inédito.
*** Publicado anteriormente no site O BULE.