'Manicômio': onde o tempo e a literatura se encontram
Lá se vão vinte e quatro anos desde a criação dos primeiros contos deste Manicômio. Eu era um jovem de 19 anos recém-chegado a uma universidade federal (UFU), um ambiente totalmente desconhecido para alguém que sempre vivera num bairro de periferia entre “os seus”. Minha descoberta da literatura ocorrera um pouco antes, aos 18, por meio das obras exigidas pelo vestibular. Todas elas (Dom Casmurro, de Machado de Assis; A noite escura e mais eu, de Lygia Fagundes Telles; Macunaíma, de Mario de Andrade; A sibila, de Agustina Bessa-Luís; Iracema, de José de Alencar; Libertinagem e Estrela da manhã, de Manuel Bandeira), alguns desses autores mais do que outros (Machado e Lygia), outros descobertos à época ou pouco depois (Drummond, Poe, Tchekhov, Milan Kundera, Campos de Carvalho[i]) – todos estão aqui, como influência implícita ou explícita, e alguns como personagens ficcionais. Passados tantos anos, muitos ainda são meus escritores favoritos.
Com base nas minhas anotações, “Meus olhos verdes” é – desta coletânea – o primeiro conto a ser iniciado (26 de janeiro de 2002); foi finalizado em 27 de setembro do mesmo ano. Ainda de 2002 são “Uma viagem ruim” (escrito em fevereiro), “Uma viagem estática” (entre 28 de maio e 27 de setembro) e “Manicômio” (entre 02 de junho e 06 de setembro). “Uma viagem fantástica”, escrito no segundo semestre de 2002, foi excluído desta segunda edição.
Os demais contos foram escritos entre o início de 2003 e o final de 2006: “Clarissa”, em 02 de agosto de 2003; “Um voo entre as estrelas e o chão”, nos dias 28-29 de novembro de 2003; “O mundo desencantado de Desseres”, em 2005 ou 2006 (não encontrei nenhuma anotação ou prova que indicasse a data exata); “Amor-perfeito”, nos dias 23, 24 e 30 de setembro de 2005; “A última revolta de Jesus Cristo”, nos meses de junho e julho de 2006.
Antes (e mesmo depois) da primeira edição de Manicômio, alguns contos foram publicados em revistas, sites, jornais e antologias. Embora a ideia de uma obra única sempre estivesse presente, foi apenas em agosto de 2012 — mais de uma década depois do início de tudo — que todos foram finalmente reunidos e publicados como uma coletânea de contos. Da primeira edição, "As (im) perfeições do nosso amor" (escrito em novembro de 2006) e "Uma viagem fantástica" foram excluídos.
A novela “O espelho”, escrita/montada entre o dia 01 de outubro de 2002 e 29 de março de 2005, com seus capítulos interdependentes, foi dividida em cinco contos, três dos quais publicados aqui: “Memórias de um espelho”, “Machado e Carolina” e “Minha namoradinha de um amigo meu”. Os outros dois, “Ensaio sobre a libertação total” e “A máquina-führer”, foram incluídos no livro Ensaios sobre a total libertação (Editora Folheando, 2025), junto com mais dois inéditos.
Para mim, uma obra literária deve cumprir, basicamente, dois propósitos: um pessoal e um coletivo. O primeiro é não envergonhar o autor com o tempo. O segundo, e mais importante, é entreter, emocionar e/ou impactar o leitor. Depois de tantos anos, posso afirmar que o primeiro está se concretizando, tendo em vista que o meu tempo ainda não terminou. Quanto ao segundo objetivo, espero ter iniciado em 2012 – e que ele continue com esta nova edição.
[i] Relendo algumas narrativas, tive a impressão de que José Saramago e Gabriel García Márquez também estão aí como influências das últimas histórias escritas, até porque só os conheci mais tardiamente.




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