Amigos do Rogers

4 de fevereiro de 2019

Clarissa e a última estrela que explodiu



Filha,
faz poucos anos que você nasceu. Desde então, minha prioridade tem sido você. Não é fácil. Não tem sido fácil. Não lembro da última noite que dormi integralmente. Não faz mal. Se não me lembro é porque não faz falta. Olhar para você, ouvir sua tagarelice, pegar você no colo, ouvir "papai" cem vezes ao dia compensam qualquer cansaço ou falta de sono. Nos últimos anos passei os anos mais difíceis, cansativos e plenos da minha vida. Me descobri pai. Me soube pai. Me percebi completo só quando me percebi - você com alguns minutos de vida reconhecendo minha voz - me percebi pai. Seu pai. Não sou mais professor, revisor de textos, acadêmico ou escritor. Sou papai da Clarissa, e isso me basta. Me basta de verdade. Ser pai não é um mar de rosas. Ser pai da "Tarissa", menos ainda. Ser pai é um abdicar constante. É um exercitar constante. Diário. Necessário. É arrumar forças onde as forças não existem mais. Ser pai solteiro e sozinho é esperar alguém dizer, em algum momento do dia: "Me dá, eu pego ela pra você ". Mas quando acontece, Clarissa, confesso que preferiria não ter acontecido, porque aqueles cinco minutos sem você no meu colo vão me fazer falta, eu sei. Vão te fazer falta. Os braços doem, óbvio, mas o que é dor de braços se comparada ao sentimento de amor que raramente sentimos nessa e em outras vidas, caso existam? "Papai não está bem, mas papai te ama e vai melhorar, prometo" - lembra quando te disse, você no meu colo, eu e você chorando, naquele crise horrível de pânico? Pois é. Papai está melhorando. Papai melhorou. Melhorou para assistir, com você, o brilho da última estrela que explodiu.

26 de janeiro de 2019

6 dicas para estimular a poesia em um mundo cada dia mais caótico

É preciso voltar à poesia de outrora que este mundo a engoliu e a defecou. Seis dicas para estimular a poesia em sua vida em um mundo cada dia mais caótico:

1) Conviva com crianças; elas são capazes de praticamente extirpar sua alma em um dia de convivência, mas - ao mesmo tempo - são capazes de fazer você perceber beleza em situações que só elas conseguem enxergar e, com bastante atenção e com a ajuda delas, você também. Elas enxergam pássaros no chão e pedras no ar.
2) Leia bastante literatura: poemas, contos, novelas, romances. Opte pelos livros mais densos. Eles nos desvirtuam dos caminhos normalmente/inconscientemente seguidos. Alguns vão te socar o estômago; outros vão te deslumbrar. Mas a literatura (ah, a literatura) é um meio contra o convite ao esquecimento, inclusive contra o convite ao esquecimento da poesia do mundo.
3) Ouça as melhores músicas do planeta. Mas como descobrir quais são as melhores músicas do planeta? São aquelas que mesmo após cinquenta, quarenta, trinta anos continuam lindas, poéticas e/ou atuais. Evite qualquer música que não esteja entre as melhores criações artísticas deste e de outros planetas, inclusive aqueles a serem descobertos.
4) Ande de bicicleta de madrugada sem as mãos no guidom (também conhecido como guidão). Se possível, em uma rua/avenida pouco movimentada. Perceberá, nesse momento, que a vida é muito mais do que aquela ladainha de reclamar do calor da manhã ou da tarde. O suor escorrerá frio, e você tremerá com isso. Mas de prazer.
5) Assista apenas aos melhores filmes. Os especialistas, as premiações e as pessoas de bom gosto estão aí para auxiliar você. Não seja um ignorante arrogante, que é o pior tipo de arrogância, aquela que orgulha da sua própria imbecilidade. Aceite sugestões. Anote as dicas. Se permita.
6) Escreva. Qualquer coisa. Mas escreva. Se não tiver vontade, escreva. Se tiver vontade, escreva. Se possível, coloque uma das melhores músicas do planeta enquanto escreve, desde que ela não comprometa suas ideias. Escrever é uma forma de você expor suas tripas ao mundo, às pessoas, e confundi-las porque elas nunca te imaginaram assim: tão nu.


7 de fevereiro de 2018

Sorteio de sete livros para sete pessoas

Clique na imagem para aumentá-la

Quer concorrer a um destes livros? É simples! Basta responder este questionário. Serão sorteados sete livros para sete pessoas diferentes, e o sorteio ocorrerá publicamente no dia 15 de março. Os ganhadores serão informados por e-mail.

Boa sorte!

28 de janeiro de 2018

Perigo

A verdade é que tenho medo. De toda verdade-convicção sem base em fatos, tenho medo. De toda crença mentirosa e perniciosa, tenho medo. Tenho medo de todo ser irracional. De gente preguiçosa. De gente acomodada. De gente cínica, burra, alienada, babaca. É preciso de muita cautela com esses seres. Desses zumbis distraídos, sempre "conectados", mas nunca interligados, é necessário de um pouquinho de medo. Frios e distantes, esses seres só olham pra baixo, uma ação quase automática. Magnetizados, eles acreditam em tudo, menos na vida. Menos nas verdades. Menos nos fatos (aliás, sempre estão distantes dos fatos reais, com os quais precisamos lidar diariamente). Ainda há heróis (poucos, claro), mas esses seres só acreditam nos vilões. Ainda há honestidade (pouca, claro), mas esses seres só acreditam em narrativas inventadas por outros seres (como dizer?) "espertos". Tenhamos medo, porque o medo é aquele sentimento suscitado pela consciência do perigo. Sim, estamos em perigo.



26 de janeiro de 2018

Sobre revisão de textos


Possui um livro pronto e pretende enviá-lo para várias editoras? Escreveu um artigo e quer submetê-lo em uma revista acadêmica? Teve um poema ou conto aceito para a publicação em uma antologia? Para todos esses e vários outros casos, sugere-se uma revisão gramatical, a fim de sanar quaisquer problemas e erros que porventura existam no texto.




24 de janeiro de 2018

Morre Nicanor

Nicanor Parra, poeta chileno, morre aos 103 anos



Ganhador do prêmio Cervantes em 2011, Nicanor Parra era um dos poetas mais importantes do século XX no cenário latino-americano. Irmão da compositora Violeta Parra, o poeta ficou conhecido por sua antipoesia, seu manifesto contra a seriedade e a sacralidade da poesia.


22 de maio de 2015

Entrevista com Wigvan Pereira



Lá no Blog Textifique, uma breve e interessante entrevista com o escritor Wigvan Pereira. É só clicar AQUI.


22 de janeiro de 2015

Estou lendo...

Mosaico de rancores, de Márcia Barbieri


TRECHOS:

"Todo amanhecer é um desvendar de coisas velhas e inéditas".

"O nosso amor é um caixão de madeira podre que jamais deveria ter sido aberto".

"É preciso desmanchar para renascer. Não ando morrendo, apenas surgindo para outras evidências".

"A barba crescida lembra um comunista que não reparte nem o amargo do próprio cuspe".

"A morte faz sentido somente para o florista".

"Eu te quero bem desde antes do Big Bang e até o final dos planetas".

"Nosso amor é uma estrofe esquecida de acontecer. Poesia marginal em boca burguesa".

"Amores não morrem, são sacrificados".

"Amá-lo é mergulhar com os bolsos cheios de pedras num rio verde e calmo..."

"Ando tropeçando na imagem suja e imperfeita que fez de mim. Eu me enxergo com seus olhos e não gosto do que vejo".

"O início de tudo é também o fim de uma história trágica".

"A vida só é engraçada para os lunáticos".

"A fidelidade é viajar em círculos de tédio".

"Não existe nenhuma criatura reta que não guarde bombas atômicas no olhar catatônico".

15 de janeiro de 2015

Patrulha na literatura?



A onda do politicamente correto está chegando a níveis perigosíssimos. Ainda agora uma leitora do meu livro me sugeriu repensar os meus personagens, porque se sentiu incomodada por conta das atitudes "machistas" e "safadas" de alguns deles. Ela quer que eu construa personagem que caiba dentro do seu moralismo barato; que não a incomode em suas opiniões, em seus discursos, em suas crenças? Ela quer uma literatura que faça média consigo mesma. Cara leitora - respondo aqui - eu faço arte, eu faço literatura. A arte é livre (ou deveria ser). Não é púlpito de igreja, que as pessoas usam para pregar moral e/ou bons costumes. Eu tento construir personagens verossímeis, convicentes, e não ventríloquos ou estereótipos. Personagens são quase iguais às pessoas: elas existem, e existem em sua diversidade de caráter e natureza, de opiniões e sentimentos; personagens - pasme! - também são incoerentes e imperfeitos, como nós mesmos. Escrevo a partir da minha vivência, claro, mas sobretudo a partir da minha observação/visão da realidade. A literatura, mais do que representação, é a transfiguração da realidade, o que quer dizer que ela deve transcender essa realidade (o que implica que ela deve transcender e, às vezes, até combater determinados discursos, por mais que isso incomode algumas almas sensíveis). Repito: eu não sou político, eu não sou padre, eu não sou pastor. Eu sou escritor e não tenho compromisso nenhum, como construtor de personalidades, com convenções sociais e morais ou discursos bonitinhos. E acho, sinceramente, que não preciso repensar sobre o assunto. Obrigado.

14 de janeiro de 2015

Estou lendo...

Sólidos gozosos & solidões geométricas, de Nelson de Oliveira


TRECHOS:

"Com o nascimento de Amanda, a mãe abandonou a faculdade de filosofia, que tanto detestava, e aprendeu a ver o mundo pelos olhos da filha. Pessoas, objetos, paisagens. Deslumbrou-se com o novo aspecto das coisas, da poeira às estrelas, quando intermediadas por uma criança" [ do conto "A mãe das aves" ]

"Tentei me acalmar. Me afastei da janela, fechei os olhos, respirei fundo, amoleci os braços - sem querer, peidei. E me assustei também com isso.
__ Ô Cristo... Mais essa. Melhor abrir a janela" [ do conto "Gotham City ]

"Só os ébrios conseguem ser tão sublimes minutos antes de descambar para o repulsivo" [ do conto "Duzentas mil horas" ]

"Tenho larga experiência com todo tipo de conversa pra boi dormir. Com mentira deslavada. Eu mesmo já transei com um número dez vezes maior de mulheres do que a verdade me permite revelar. Nas posições mais loucas. Só para impressionar a galera. Todo mundo faz isso" [ do conto "Os olhos da gata" ]

"Tenho consciência do que fiz e não me arrependo. Só os tolos têm medo da morte lenta e dolorosa ou da insanidade irreversível" [ do conto "O dia dos prodígios" ]

7 de janeiro de 2015

#‎JeSuisCharlie‬



Sim, eu tenho medo de qualquer tipo de extremismo/extremista religioso, político, partidário, à esquerda ou à direita, com ou sem barba, seja ele amigo meu ou não. Toda forma de extremismo é uma forma de tentar calar aquele com o qual não se concorda. É anti-democrático. É autoritário. O extremista é egoísta, é vaidoso, se faz de vítima para se tornar o carrasco. Toda forma de extremismo é uma forma de cegueira, por achar - o extremista - que suas opiniões são mais valiosas do que as do outro; que suas crenças são mais sagradas do que as do outro; que suas atitudes são mais especiais do que as do outro. O extremista é um ingênuo, mas não um ingênuo inofensivo - é um ingênuo com tendências fascistas, por acreditar em um regime caracterizado por medidas autoritárias, sempre criado - esse regime - por si e pelos seus, para si e para os seus. O extremista, como o fascista, não se preocupa com a liberdade do outro. O que importa são apenas suas ideias, mesmo que essas ideias nem sempre resultem em ações, muito menos em boas ações. Por isso toda forma de extremismo deve ser combatida. Por isso ‪#‎JeSuisCharlie‬

6 de janeiro de 2015

Estou lendo...

Sidarta, de Hermann Hesse


TRECHOS:

"Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos."

"Dela aprendia Sidarta que os amantes não devem separar-se após a festa do amor sem que um parceiro sinta a admiração do outro; sem que ambos sejam vencedores tanto como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio".

"Ao observar aquela existência infantil ou animalesca que levavam os seres humanos, ao mesmo tempo adorava e desprezava tal estilo de vida. Via como labutavam, sofriam, envelheciam por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho esforço e como se empenhavam em obter dinheiro, prazeres minúsculos, honrarias insignificantes".

"Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simultaneidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida é indestrutível e cada instante, eterno".

11 de dezembro de 2014

Sorteio do livreto "Meus olhos verdes"

Neste final de ano O Bule, no Facebook, está sorteando 10 (dez) exemplares do livreto "Meus olhos verdes", um dos contos do Manicômio, de minha autoria. Perde não! É só clicar AQUI para obter mais informações e saber como participar!


18 de março de 2014

15 de março de 2014

Estou lendo...

A última música, de Nicholas Sparks


Às vezes me rendo aos best sellers. Não é sempre. Dessa vez, depois de comprar alguns livros em promoção no último final de ano (e dentre eles, uns três best sellers), resolvi levar comigo, a uma viagem de quatro dias, o livro A última música, de Nicholas Sparks, autor estadunidense que sempre aparece na lista dos mais vendidos, inclusive nas listas aqui do Brasil. Até aí nada demais: escritor estadunidense; best seller; muito lido por brasileiros, etc. Estranho seria um autor mato-grossense virasse best seller e, em consequência, fosse muito lido por brasileiros. Mas voltando ao foco desse post: sabe aquela sensação de que "eu já li essa história algumas vezes?" Ou: "eu já vi essa mesma história em dezenas/centenas de filmes outras vezes?". Então, foi essa a sensação que tive, como leitor, quando cheguei lá pra página 70 do livro, que se resume em: 1) adolescente chata, magoada, revoltada, sem causa (ou não); 2) grupinho de jovens que cometem bullyng; grupinho dos esportistas, malhados, bonitos, populares; grupinho de moças fúteis; 3) pessoas comendo cheeseburger com ketchup em quiosques à beira da praia; ou pessoas comendo cheeseburger, com milkshake de chocolate e batatas fritas; 4) final hiper piegas de perdão e recomeço.

É por livros assim, lidos por milhões de pessoas no mundo todo, que fico me perguntando como determinadas fórmulas prontas de narrativa são tão efetivas, já que não trazem nada de novo, nada de interessante, nada de surpreendente e, a par disso, conseguem conquistar tantos fãs, que acreditam piamente que autores como esse são uns verdadeiros gênios, quando são na verdades uns impostores que escrevem de acordo com o modelo, exatamente com fazíamos na quinta série. Lembram?

Se for para ler maaaaais uma história dos típicos adolescentes/jovens dos EUA,  que leia Carrie, a estranha, de Stephen King, publicado em 1974. O resto é cópia mal feita.